Wishful Thinking ou Golpe de Misericórdia?

A Wikipedia enquanto Nova Forma de Mediação dos Saberes

 

Revista de Comunicação e Linguagens, n.º 38 («Mediação dos Saberes»), Lisboa, Relógio d'água, Dezembro de 2007, pp. 129-142.

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0. «Neutral point of view».

Confesso-me fraco adepto do conceito de «inteligência colectiva», proposto por Pierre Lévy (Lévy, 1997a e 1997b), bem como dos seus derivados, de que o exemplo mais saliente é possivelmente o (quase trocadilho) sugerido por Derrick de Kerckhove, «inteligência conectiva» (Kerckhove, 1997). Posto isto, e presumindo que tal é suficiente para que este texto não seja tomado por uma apologia, volto a dar com a outra mão aquilo que acabei de tirar, propondo-me a não utilizar daqui em diante1 qualquer outra referência que não tenha sido encontrada online.

 

1. «Assume good faith» (ou «Be liberal in what you accept, be conservative in what you do»).

Não são necessárias estatísticas para validar aquilo de que o senso comum já se deu conta: que a Internet ombreia com outros meios mais clássicos e gutenberguianos enquanto fonte de acesso à informação, nomeadamente -- e é esse o caso que mais nos vai interessar -- informação de carácter científico destinada a não especialistas. É nesse sentido, aliás, que devem entender-se optimismos como os de Lévy e de Kerckhove: a democraticidade inscrita na própria arquitectura da World Wide Web e do código HTML2 fez com que, por vagas -- as webpages pessoais no final da década de 90 e os blogs nos primeiros anos deste milénio são até à data as respectivas cristas --, o meio se tornasse um gigantesco repositório de todo o tipo de conhecimentos, do mais abstruso (a ponto de a própria expressão «conhecimento» estar à beira da inaplicabilidade) ao mais meticulosamente sancionado pelas diversas comunidades científicas. É, como se adivinha, esta última forma de conhecimento aquilo que constitui o horizonte das conjecturas mais optimistas, que contudo fazem os possíveis por ocultar a outra face da moeda em artifícios mais ou menos retóricos, sendo que o mais simplista é nem sequer lhes reconhecer a existência e o mais refinado o de postular uma espécie de neguentropia do próprio sistema, que, left to its own devices, expulsaria (ou expulsará, em breve) o lixo para as «margens», trazendo para o «centro»3 apenas o relevante.

Tem contudo de haver um pouco de verdade nessas alegações -- isto é, um mínimo de fundamentação empírica --, ou depressa elas seriam refutadas. Encontramo-la, por exemplo, no motor de busca Google, em particular na fonte do seu sucesso, o algoritmo «PageRank», que permite -- simplificamos por questões de espaço e pertinência, deixando de lado outros factores que condicionam a precisão do que está a ser afirmado4 -- uma hierarquização das páginas indexadas sob uma determinada palavra-chave, o que leva a que, numa espécie de bola de neve do tipo «rich get richer», URLs mais consultadas (presume-se que devido à qualidade dos respectivos conteúdos) se tornem mais densamente conectadas -- com mais «incoming links» --, aumentando a probabilidade de serem mais consultadas e assim sucessivamente5. Afinal um método que não anda longe do sistema de hierarquização de artigos científicos peer reviewed, respectivos autores e instituições a que estão ligados, mas que ele próprio tem uma face oculta: o fenómeno de clustering, ou seja, de aglomeração de sites segundo núcleos temáticos, que faz com que a World Wide Web se assemelhe mais a uma colecção de ilhas (apesar das pontes a ligá-las) do que a um só megacontinente da sabedoria. Traduzido em termos mais corriqueiros, significa isso que o facto de um site ser o mais consultado ou o mais densamente conectado dos que versam sobre -- por exemplo -- astrologia em nada o torna cientificamente correcto, nem sequer neutral, pois não fará mais do que ir ao encontro das expectativas de quem partilha uma determinada crença pré-científica.

A mais acutilante objecção a esse suposto sistema de «selecção darwiniana» é no entanto aquilo que faz com que, como insistia o próprio Darwin, conduza não à sobrevivência do melhor ou do mais forte e sim do mais apto a um determinado ambiente: o facto de os conteúdos de cada página pessoal ou blog possuírem uma característica «autoral» não confere, por si só, qualquer garantia de que esta será muito consultada, citada, ou que apareça em lugar de destaque numa busca. Ainda que uma mutação genética seja fruto do acaso, ao passo que os conteúdos de uma qualquer URL resultam da intencionalidade de um ou mais autores, só um processo a posteriori de selecção (pelo ambiente e pelos competidores intra e extra-espécie no primeiro caso, pelos utilizadores -- por vezes também autores -- da web no outro) permite decidir se tal resulta numa «vantagem competitiva». Ora, as vantagens competitivas de um site cujo objectivo é desmontar a acientificidade da astrologia são bem distintas das de um outro que a enaltece. Se se quiser (optando agora por um vocabulário tomado de empréstimo à economia e não já à biologia), oferta e procura são instâncias tendencialmente independentes entre si, e -- sonho de uma «mão invisível» mais ao alcance do que alguma vez o esteve na economia real -- o mercado é controlado, mesmo que não intencionalmente, pela procura6. Contudo -- e com isso completamos a objecção do início deste parágrafo --, não há uniformidade nos «bens» que são procurados, mas tão-só equivalência entre utilizadores: os «crap artists»7 que andam à cata de provas para alimentar as suas teorias da conspiração estão, a este respeito, ao mesmo nível de um físico, de um especialista em literatura ou (caso mais delicado) de um estudante de liceu ou de licenciatura que busca material para um trabalho escolar.

Tudo parece portanto indicar que os sonhos mais optimistas de uma «sociedade do conhecimento», de um novo (ou melhor, finalmente concretizado) iluminismo para a era electrónica, estão à partida condenados. Na ausência de uma «plataforma» comum e universal -- lembramo-nos das tentativas de fundamentação transcendental da Razão, de Kant a Apel passando por Habermas, bem como de suspeitas como as de Lyotard quanto à sua exequibilidade --, jamais a World Wide Web conseguirá a «transição de fase» entre o reflexo da incomensurabilidade das crenças e culturas dos seus utilizadores, que ainda é, e a tão exaltada função de agregador e facilitador dos saberes, verdadeiramente universal e multicultural. Há contudo um elemento novo a baralhar tanto as expectativas dos mais cépticos quanto as dos mais incorrigivelmente optimistas. Na clássica tradição iluminista, trata-se de uma enciclopédia; no pós-moderno domínio do digital, trata-se de um hipertexto, de um trabalho cooperativo e de uma obra em permanente actualização -- tudo em simultâneo. Falamos do projecto Wikipedia.

 

2. «No original research»8.

Assumindo que propostas como as de Vannevar Bush («Memex») e de Ted Nelson («Xanadu») careciam à data de meios tecnológicos de concretização, verdadeiros projectos de uma enciclopédia acessível de forma gratuita na Internet -- particularmente na World Wide Web, devido às suas intrínsecas características hipertextuais -- tomaram forma logo que o meio sofreu a grande explosão, isto é, no início da década de 90. Data de 22 de Novembro de 1993 a proposta de uma Interpedia -- também ela nunca levada a cabo --, ainda que tivesse sido necessário aguardar por Março de 2000, quando a Nupedia foi anunciada ao público, para ter disponível na WWW a primeira enciclopédia simultaneamente online e de livre acesso. À excepção do suporte e da inerente possibilidade de navegação hipertextual entre entradas, tratava-se em tudo o resto de uma enciclopédia ao estilo clássico: cada artigo seria elaborado por um ou mais especialistas na respectiva área temática, preferencialmente todos detentores de grau académico equivalente ao doutoramento, nunca sendo aprovado (e portanto tornado público) sem um demorado processo de peer reviewing. Mais pormenorizadamente9, depois de adjudicado a um ou mais colaboradores, teria de ser revisto o seu conteúdo até atingir uma versão estável, revista a sua forma, e só então poderia aprovado e transposto para um formato legível por um browser. Entre Março de 2000 e Setembro de 2003, data oficial da morte deste projecto, foram completados apenas 24 artigos e 74 estavam em versão provisória, o que mostra bem o quão lentamente se estava a avançar.

Jimmy Wales, o «cérebro» por trás da Nupedia, tomou consciência da morosidade do processo de edição, o que o levou a lançar, a 15 de Janeiro de 2001, um projecto complementar, essencialmente para uma mais rápida acumulação de informação, que seria depois seleccionada pelos (então e sempre poucos) autores credenciados de artigos. Seria um wiki10, isto é, um conjunto de páginas editáveis -- facilmente editáveis, se o termo de comparação for a criação de páginas em HTML -- por qualquer utilizador, o que permitiria tornar as entradas (em permanente actualização e expansão) resultado de um esforço verdadeiramente cooperativo.

Desenvolvido pela primeira vez em meados dos anos 90 pelo programador Howard (Ward) Cunningham com o objectivo de criar uma «knowledge base» para facilitar a partilha de informações sobre o desenvolvimento de software, o remoto antecedente (técnico) da Wikipedia -- o site WikiWikiWeb11 -- permitia já, como o faz a esmagadora maioria dos wikis, lançar alterações e também, pelo facto de conservar uma base de dados com o historial de alterações, reverter a uma versão prévia. Esta é uma característica-chave que complementa a anterior, a de livre edição: se apenas a versão mais recente ficasse armazenada, rapidamente uma página ou entrada poderia ser vandalizada -- o que, em todo o caso, frequentemente ocorre --, deitando por terra qualquer objectivo de acumulação e correcção de conteúdos. Em vez de um sistema de restrição de acesso (ou melhor, sobrepondo-se a este quando existe, mas muitas das vezes prescindindo dele, de tal forma que o acesso «activo» se torna verdadeiramente livre e universal), confia-se que 1) a mera possibilidade de reverter uma vandalização desencoraje tal tipo de actos; e que 2) na eventualidade de ocorrer, a sua detecção e remoção/reversão será relativamente rápida (a Wikipedia, como boa parte dos wikis, apresenta na página de abertura um link para a lista das alterações mais recentes, o que acelera esse processo de detecção).

Longe de ser perfeito, o sistema revela-se ainda assim bastante eficaz no que respeita a este tipo de correcção, a que poderíamos chamar «negativa» na medida em que previne, pela reversão a versões anteriores, que o conteúdo se degrade. Basta para tal que os utilizadores consultem o wiki com alguma frequência e não hesitem em executar as acções necessárias. Muito mais imprevisível é o processo inverso -- a correcção «positiva», portanto --, isto é, a adição voluntária de novos conteúdos e o aperfeiçoamento dos existentes. O problema adensa-se se se tratar, como ocorre com a Wikipedia, de algo que procura conjugar os propósitos de cientificidade com a total (ou quase total12) abertura a todo o tipo de colaboradores -- de um lado, mesmo a reversão eficaz (leia-se, em tempo útil) pode ver-se ameaçada quando o número de entradas é demasiado avultado, como se espera de uma enciclopédia; do outro, a possibilidade de que qualquer um, leigo ou especialista, possa editar os conteúdos coloca aparentemente em risco a sua credibilidade.

Ora, é justamente neste ponto que radica o inesperado da Wikipedia. Melhor: os inesperados. Em primeiro lugar, aquilo que era um projecto subsidiário, uma forma de aumentar o conjunto de contribuições para a Nupedia, que manteria uma estrutura clássica, ganhou vida própria, deixando o seu progenitor definhar (no que toca a conteúdos) e desmoronar-se (no que toca à sua pesada estrutura de peer reviewing e edição). Em menos de um mês, a 12 de Janeiro de 2001, a Wikipedia passou a barreira dos mil artigos, e durante esse primeiro ano de existência cresceu a uma média mensal de 1500 novas entradas.

Estes números nada revelam contudo acerca da qualidade desses artigos, o que nos obriga a continuar a argumentação. Temos assim, em segundo lugar, que a Wikipedia beneficiou daquilo a que poderíamos chamar um efeito «bola de neve»... ou vários: a menção em sites como o Slashdot, ainda nesse ano, aumentou tanto o fluxo de utilizadores passivos quanto o número de contribuidores activos; em Maio de 2001, estavam já iniciadas várias versões internacionais (em francês, chinês, holandês, esperanto, hebraico, italiano, japonês, português, russo, espanhol e sueco); em Outubro de 2002, o recurso a um bot -- um programa que automatiza tarefas -- permitiu gerar, sem intervenção humana, um grande número de entradas sobre cidades dos Estados Unidos a partir dos dados do U. S. Census; diversas melhorias a nível técnico -- como a capacidade de inserção de fórmulas matemáticas (o que ocorreu em Janeiro de 2003), ou automatismos similares ao anterior -- têm sido também progressivamente acolhidas.

Do lado dos mecanismos de controlo -- terceiro dos pontos que pretendemos referir --, tem havido um esforço na conciliação entre aquela que é a sua característica mais apregoada, a livre edição de artigos13, e a exigência de qualidade destes, não só prevenindo actos de vandalismo como estimulando a permanente revisão e melhoria dos conteúdos. A Wikipedia possui por isso um robusto conjunto de «policies» e «guidelines» genéricas (recomendações que se pretendem normativas mas cuja obrigatoriedade não pode ser imposta)14, acompanhadas por acções de carácter mais pontual -- restritas a utilizadores que adquiriram o estatuto de «administradores» -- que consistem em impor temporariamente limitações à edição de certos artigos (permanentemente no caso das páginas que enunciam essas mesmas «policies» e «guidelines») e a bloquear utilizadores.

E finalmente, a quarta e mais importante característica da Wikipedia, a qualidade dos conteúdos tem vindo a equiparar-se -- com muitas ressalvas que não podem ser ignoradas -- à das clássicas enciclopédias. Mas esse é um ponto que merece uma análise mais cuidada.

 

3. «Verifiable information only».

São já substanciais as análises -- mais ou menos rigorosas, mais ou menos especulativas, mais ou menos apoiadas em dados quantitativos -- à própria Wikipedia. Andrew Lih, num artigo sobre as potencialidades desta enquanto forma de «jornalismo participativo»15, salienta a novidade de meios online como a Wikipedia na medida em que criam, na chamada «Pirâmide da Informação», uma nova instância que lhe é transversal. São, tal como as enciclopédias tradicionais, uma «fonte secundária» -- e portanto concebidas preferencialmente como lugar de acumulação de «conhecimento» --, mas com a peculiar característica de a sua actualização ser pelo menos tão célere quanto a categoria que recebe, strictu sensu, o nome de «informação» (cf. a tabela seguinte). Tal obriga também a que se repense a categoria do «âmbito temporal», pois durabilidade e rapidez de actualização deixam de coincidir: desejavelmente tão durável quanto outras fontes secundárias, por vezes ambicionando a mais, mas actualizável ao ritmo da «informação», por vezes dos «dados em bruto».

 

Tipo de informação Exemplos de fontes Tipo de fontes Âmbito temporal
Sabedoria Livros, publicações académicas Investigação e análise Anos, décadas, séculos, ad infinitum
Conhecimento Revistas, enciclopédias Fontes secundárias Semanas, meses, anos
Informação Jornais, revistas, noticiários televisivos, outras fontes noticiosas Fontes primárias Minutos, horas, dias, semanas
Dados em bruto Cotações da bolsa, resultados desportivos e eleitorais, estatísticas económicas, inquéritos e entrevistas, conferências de imprensa Recepção directa Instantes, segundos

Relação entre fontes jornalísticas e a pirâmide da informação (in Lih, 2004a, p. 5)

 

O objectivo de Lih no artigo -- objectivo apenas tangencial ao nosso -- é, dentro desse quadro conceptual, o de demonstrar como se processa a interacção entre a cobertura jornalística de acontecimentos (uma das ilustrações são os atentados bombistas de Madrid em 2004) e as respectivas entradas na Wikipedia: não só esta tem progressivamente assumido o papel de fonte jornalística (em particular -- mas não exclusivamente -- em dossiers retrospectivos) como os acontecimentos mais noticiados são de modo geral os mais editados, tendencialmente ao ritmo a que as notícias em torno destes se sucedem16, como que a confirmar mais uma vez a hipótese do agenda-setting. Ainda mais importante para a nossa argumentação: as edições tendem a ser -- embora seja difícil prová-lo empiricamente17 -- contributos positivos, i. e., ou acrescentam elementos novos ou são correcções ao que constava de edições anteriores.

Note-se contudo que Andrew Lih se concentra em entradas ligadas (mesmo que de forma indirecta) a acontecimentos recentes, deixando para trás -- excepto como termo comparativo -- aquilo que ele mesmo designa como «benchmark subjects» -- entradas como «World_War_II» ou «Hinduism», mais estáveis tanto do ponto de vista temporal quanto do seu estatuto enquanto «conhecimento». É pensando neste tipo mais clássico de entradas que Todd Holloway, Miran Božičević e Katy Börner relembram, no artigo «Analyzing and Visualizing the Semantic Coverage of Wikipedia and its Authors», as críticas habitualmente apontadas ao rigor da Wikipedia:

 
«Wikipedia’s reliability as a source of information has been repeatedly questioned in the media and debated in its communities. Critics see two main flaws: persistent inaccuracies and systemic bias.
The inaccuracies stem from the lack of an authority or a peer review process that would verify every piece of information entered into Wikipedia. Users voluntarily review new edits, and while vandalism and self-promotion get identified and reverted quickly, small errors and bad writing may remain on display for significant periods. In early July 2005, for example, an erroneous report of the death of comic strip author Jeph Jacques remained online for two days, surviving through 10 edits.
As a result, Wikipedia is most often not admitted as a reliable bibliographic reference. […]
A systemic bias arises because English Wikipedia authors are necessarily Internet users with decent knowledge of the language, enough free time to contribute, and sufficient technical facility to edit a wiki page. Wikipedia coverage tends to favor topics of interest to such users. In October 2004, for example, the article about Hurricane Frances was five times the size of one on Chinese art. Wikipedia itself reports imbalanced coverage by geographic area favoring North America, Japan, Western Europe, Australia and New Zealand, significantly more pronounced than in editorially created English language encyclopedias. Wikipedians concede this imbalance as inevitable, with hope it will decrease as the content grows.
A third issue is the non-persistence of Wikipedia entries due to continuous update. This makes the value of citing Wikipedia entries questionable.» (Holloway, Božičević e Börner, 2006, pp. 4-5)

 

Por mais que possamos depreciar a terceira das críticas -- como que dizendo que «não é defeito, é feitio», já que essa é característica comum a tudo o que se encontra na web, que obriga a mencionar, além da localização dum recurso, a data em que foi acedido --, já a mesma despreocupação não pode manter-se no caso das anteriores: os «enviesamentos» culturais continuam a privilegiar as imagens ocidentalizadas (se não mesmo apenas anglo-saxónicas, ou, no limite, exclusivamente americanas) do mundo e há incorrecções que escapam aos olhares de quem poderia eliminá-las (ou, sendo detectadas, falta a iniciativa por parte do leitor especialista). A rectificação dos desequilíbrios linguísticos e culturais tem sido lenta; firme se pensarmos apenas na multiplicação de versões locais (segundo critérios linguísticos ou nacionais), mais frouxa se se tiver em conta que a essas diferentes versões não corresponde um intercâmbio de perspectivas entre os respectivos conteúdos: a máxima do «Neutral Point of View» é um ideal difícil de atingir, mas pelo qual não pode deixar de se lutar.

Quanto às «incorrecções persistentes», devemos voltar a nossa atenção para um recente estudo da revista Nature, publicado na edição de 15 de Dezembro de 2005 (Giles, 2005a e 2005b, esta última referência correspondendo às notas explicativas). Depois de escolhida uma amostra de cinquenta artigos da Wikipedia e da versão online da Encyclopaedia Britannica sobre as mais variadas áreas disciplinares, cada par de artigos foi enviado a um especialista, pedindo que fossem identificadas as imprecisões segundo três grandes categorias18: erros factuais, omissões cruciais e afirmações ambíguas. Deixemos que o artigo relate os resultados:

 
«Only eight serious errors, such as misinterpretations of important concepts, were detected in the pairs of articles reviewed, four from each encyclopaedia. But reviewers also found many factual errors, omissions or misleading statements: 162 and 123 in Wikipedia and Britannica, respectively.» (Giles, 2005a, citado a partir de fonte online)

 

A média é de quatro incorrecções por artigo na Wikipedia contra «apenas» três na Britannica: um empate técnico que é confirmado pelo mesmo número de erros classificados como grosseiros em ambas as enciclopédias. A surpresa reside tanto na (relativamente) reduzida quantidade de erros numa enciclopédia aberta a todo o tipo de colaboradores quanto na persistência de erros equivalentes numa outra que se esperaria à prova dessas incorrecções. As manifestações foram por isso de júbilo para Jimmy Wales -- «“I'm pleased”, he says. “Our goal is to get to Britannica quality, or better.”» (idem, citado a partir de fonte online) -- e de incredulidade por parte dos editores da Britannica, que num primeiro momento menorizaram os resultados do estudo e posteriormente (em Março de 2006) os contestaram:

 
«Nature’s research was invalid. As we demonstrate below, almost everything about the journal’s investigation, from the criteria for identifying inaccuracies to the discrepancy between the article text and its headline, was wrong and misleading. Dozens of inaccuracies attributed to the Britannica were not inaccuracies at all, and a number of the articles Nature examined were not even in the Encyclopaedia Britannica.» (Encyclopedia Britannica, Inc., 2006, p. 2)

 

A revista Nature não recuou na sua posição, tendo em contra-resposta (Nature, 2006a e 2006b) relembrado que se tratava de comparar versões online, o que explica alegações como a de que alguns artigos não faziam parte da edição em papel -- nalguns casos a versão online da Britannica redirecciona automaticamente para o Britannica Book of The Year ou para a Student Encyclopedia, e foram então essas as entradas comparadas com a Wikipedia. Ainda noutros casos a disputa dizia respeito ao estatuto das omissões cruciais -- o que é «crucial» para alguns parece ser «secundário» para outros e vice-versa -- ou a factos e teorias ainda não totalmente estabelecidos, e acerca dos quais há um «conflito de interpretações». Ainda que se aceite a refutação por parte dos editores da Britannica, note-se contudo que se tratava de uma defesa dos seus conteúdos e nunca de um ataque aos da Wikipedia, o que pelo menos deixa esta última numa posição confortável relativamente àquilo que temos estado a averiguar, isto é, a sua validade enquanto instrumento de pesquisa e de aquisição de conhecimentos.

Há contudo um outro tipo de teste que desejaríamos ver realizado em larga escala num futuro próximo, e que permitiria até certo ponto cruzar as duas objecções fundamentais acima assinaladas pelo artigo de Holloway, Božičević e Börner: serão outras versões da Wikipedia que não a de língua inglesa igualmente fiáveis?

 

4. «Be bold… but don't be reckless! (AKA: Perfection not required)».

Tendo em conta as comedidas intenções deste artigo, que se quer preliminar e não definitivo, servir-nos-á uma breve amostra, com o seu quê de aleatório, tomada de empréstimo a um campo científico que nem sequer é o nosso. Pretende-se com esta abordagem emular aquela que acreditamos ser a situação mais comum de consulta à Wikipedia (ou a qualquer outro tipo de enciclopédia), a do leigo que pretende, fruto da mera curiosidade intelectual ou de alguma necessidade esporádica, saber um pouco mais sobre um assunto ou sobre uma área do conhecimento. A coincidência temporal entre o início da escrita deste texto e a aquisição de um livro de divulgação científica intitulado Seven Deadly Colours serviu por isso de ponto de partida para a breve resenha que se segue.

Seven Deadly Colours, da autoria do zoólogo britânico Andrew Parker, procura apresentar, em cada um dos sete principais capítulos, outras tantas cores e -- mais importante, pois é isso que rege a escolha de cada cor e não o inverso -- outros tantos modos pelos quais a percepção da cor está presente nos animais e qual a sua importância na adaptação ao meio. Desse livro retivemos uma lista de conceitos cujas definições foram de seguida procuradas na versão inglesa da Wikipedia (a que iniciou o projecto e que ainda hoje é a que contém mais entradas) e na versão portuguesa (ou melhor, luso-brasileira).

Para que não nos alonguemos, eis o resultado (simplificado e reduzido a indicadores quantitativos) dessa pesquisa19:

Versão inglesa Versão portuguesa
Entrada A B C Entrada A B C
Adenosine triphosphate 7,5 3 12 Adenosina tri-fosfato 1,5 2 0
Benham’s top 1 1 3 -- -- -- --
Bioluminescence 6 4 0 Bioluminescência 0,5 (órfão) 0 0
Camouflage 6 7 8 Camuflagem 1 1 0
Chromatophore 7 6 35 Cromatóforo 0,5 0 0
Cone cell 3 1 3 Cone (célula) 0,5 0 0
Diffraction 10 8 0 Difração 2 1 1
Electromagnetic spectrum 6 4 0 Espectro eletromagnético 0,5 0 0
Fluorescence 5 2 0 Fluorescência 0,5 1 0
Mimic 2,5 2 0 Mimetismo 1 1 0
Phosphorescence 1,5 1 0 Fosforescência 0,5 0 0
Photonic crystals 1,5 1 0 -- -- -- --
Photosynthesis  9 3 7 Fotossíntese 4 0 0
Pigment 9 17 10 Pigmento 3 0 0
Polarization 13 8 9 Polarização20 5 1 6
Retina 5 4 7 Retina 2 2 0
Rhodopsin 2 3 0 Rodopsina 1,5 2 0
Sonoluminescence
(redireccionado de Shrimpoluminescence)
4 (menos de meia página) 2 (0) 6 (1) -- -- -- --
Tyndall effect 0,5 1 0 Efeito Tyndall 0,5 0 0

Legenda: A -- Extensão aproximada do texto (ecrãs); B -- Número de ilustrações; C -- Número de referências bibliográficas21

 

Os números do quadro praticamente dispensariam qualquer comentário, a que contudo não nos furtamos. Duas das entradas («Benham’s Top» e «Photonic Crystals») não existem na versão portuguesa, e no caso de uma terceira («Shrimpoluminescence», que na versão inglesa redirecciona para o artigo mais lato «Sonoluminescence») em que o termo procurado é uma curta secção de menos de meia página, a ausência estende-se a qualquer das alternativas. Nos casos em que há entradas tanto na versão inglesa quanto na portuguesa, a regra é a de que nesta última elas sejam quase invariavelmente mais curtas, com muito menos ilustrações e, salvo duas raras excepções («Polarization» e «Diffraction»), desprovidas de referências bibliográficas. Em regra, os artigos na versão portuguesa são três a cinco vezes menos extensos, exceptuando-se as situações em que ambas as versões são relativamente curtas ou mesmo «stubs» -- isto é, esboços com menos de um ecrã --, e um ou outro caso («Retina», «Photosynthesis») em que a disparidade de tamanhos se reduz um pouco.

Não quer isto dizer -- longe disso, aliás -- que a edição inglesa é infalível. Também nesta seriam desejáveis mais referências («Chromatophore» é uma impressionante e inesperada excepção, com 35) e, como leigos que somos nesta área do conhecimento, sem elas aumenta a probabilidade de assimilar como verdades científicas afirmações discutíveis ou insuficientemente comprovadas. Podemos contudo dar como seguro que o estilo de escrita da versão inglesa é por regra mais limpo, procurando com frequência conciliar a exactidão dos termos com a clareza que pede um público não especializado. Uma comparação das primeiras frases (aproximadamente 100 palavras) das entradas «Tyndall effect» e «Efeito Tyndall» permite dar conta dessa diferença estilística22, justificável em parte pelo número de edições (54 no primeiro caso, 6 no segundo):

 

The term Tyndall effect is usually applied to the effect of light scattering on particles in colloid systems, such as suspensions or emulsions. It is named after the Irish scientist John Tyndall. The Tyndall effect is used to tell the difference between the different types of mixtures namely solution, colloid and suspension. For example, the Tyndall effect is noticeable when car headlamps are used in fog. The light with shorter wavelengths scatter better, thus the color of scattered light has a bluish tint. This is also the reason as to why the sky looks blue - the light from the sun is scattered and we see the blue light because it scatters better. O efeito Tyndall é uma técnica usada para identificar uma dispersão coloidal. O efeito Tyndall foi descoberto em 1868, por John Tyndall, que em uma de suas experiências, percebeu o espalhamento de um feixe de luz em um meio contendo partículas em suspensão, Tyndall observou que uma sala cheia de fumaça ou poeira, tornava visível um feixe de luz que entrasse pela janela.
As partículas que compõem os sistemas coloidais são muito pequenas para serem identificadas a olho nu, mas o seu tamanho é quase igual ao do comprimento de onda da luz visível. Por isso, uma luz que atravesse um sistema coloidal irá ser refletida pelas partículas.

 

Não há contudo enciclopédias perfeitas, como já foi argumentado acima. Um conceito que ocorre com bastante frequência em Seven Deadly Colours é o de «cor estrutural» -- uma forma de «selecção»23 de frequências luminosas em que se prescinde do recurso a pigmentos, resultando em vez disso dum efeito de difracção originado pela própria estrutura microscópica de alguns materiais (como é o caso das escamas das asas de algumas borboletas) --, mas nenhuma das versões em apreço possui uma entrada com esse intitulado. Na versão portuguesa falhou a nossa busca a qualquer referência similar: o conceito não surge em «Cor» nem em qualquer outra entrada relacionada. Mas o caso mais digno de nota ocorre com a versão inglesa. «Structural color» redirecciona automaticamente para «Color», onde o termo está reduzido a uma secção com cerca de meio ecrã de extensão; a definição aí presente é concisa (e clara, na nossa opinião), terminando com um esclarecimento que serve também de advertência: «A layman’s term that describes particularly the most ordered structural colors is iridescence.» Ora, ao clicar no link respectivo e entrando em «Iridescence», damos com uma definição de quatro parágrafos (e três belas ilustrações: uma borboleta, uma bolha de sabão e um fóssil duma concha de molusco com reflexos metálicos) da qual está ausente o termo «structural color». Em poucas palavras, o «layman’s term» prevalece sobre o conceito que deveria contê-lo como caso particular.

 

Pelos factos (comprováveis) de haver muito mais contribuições e contribuidores na língua inglesa e de esta ser a língua franca na comunidade científica, pelo (hipotético) de esta congregar também um maior número de especialistas -- e presumivelmente mais activos -- nas respectivas áreas, e ainda pela vantagem temporal (mesmo que a versão portuguesa só conte com alguns meses de atraso e seja actualmente a oitava em número de artigos24), é compreensível que a versão lusófona não esteja ainda à altura da sua «parente mais velha». Há sem dúvida casos em que a dimensão mais reduzida (quer em número de entradas quer na sua extensão) poderia constituir uma vantagem. Pensamos nomeadamente na grande quantidade de trivial knowledge (listas de episódios de séries televisivas ou tantos outros elementos da cultura de massas cuja presença numa enciclopédia deste tipo é discutível -- mesmo que a nossa opinião não seja de todo desfavorável à sua inclusão, poderiam constituir um projecto paralelo), mas como esta all-inclusiveness já se disseminou à edição portuguesa tal tipo de apologia deixa de ter sentido25.

A discrepância nas extensões poderia também marcar a diferença entre uma entrada (em português) destinada a leitores que não procuram um grande grau de profundidade e uma outra (em inglês) onde essa profundidade está à sua disposição26. Por enquanto, contudo, a preferência recai indubitavelmente sobre a versão «original», faltando os argumentos que façam recomendar a de língua portuguesa27. O que é um revés para o tão propagado princípio do «Neutral Point of View»: enquanto uma língua periférica (e, ainda assim, a sexta mais falada no mundo) estiver limitada a versões handicapped da Wikipedia, também a expressão «Sociedade do Conhecimento» continuará a ser uma intenção por concretizar.

 


Bibliografia:

Encyclopedia Britannica, Inc.

2006 «Fatally Flawed: Refuting the Recent Study on Encyclopedic Accuracy by the Journal Nature», memorando público, Março de 2006, última consulta a 13 de Novembro de 2006.

Giles, Jim

2005a «Internet Encyclopaedias go Head to Head», Nature, n.º 438, 15 de Dezembro de 2005, pp. 900-901, última consulta a 13 de Novembro de 2006.

2005b «Supplementary Information to Accompany Nature News Article “Internet Encyclopaedias go Head to Head”», 22 de Dezembro de 2005, última consulta a 13 de Novembro de 2006.

Holloway, Todd, Božičević, Miran e Börner, Katy

2006 «Analyzing and Visualizing the Semantic Coverage of Wikipedia and its Authors», artigo submetido à revista Complexity, última consulta a 13 de Novembro de 2006.

Kerckhove, Derrick de

1997 Connected Intelligence: The Arrival of the Web Society, ed. port. Inteligência Conectiva: A Emergência da Cibersociedade, Lisboa, Fundação para a Divulgação das Tecnologias da Informação, 1998.

Lessig, Lawrence

2000 Code and Other Laws of Cyberspace, Nova Iorque, Basic Books.

Lévy, Pierre

1997a L’intelligence collective: Pour une anthropologie du cyberspace, Paris, La Découverte.

1997b Cyberculture, ed. port. Cibercultura, Lisboa, Instituto Piaget, 2000.

Lih, Andrew

2004a «Wikipedia as Participatory Journalism: Reliable Sources? Metrics for evaluating Collaborative Media as a News Resource», comunicação apresentada ao 5th International Symposium on Online Journalism, University of Texas at Austin, 16 e 17 de Abril de 2004, última consulta a 13 de Novembro de 2006.

2004b «Participatory Journalism and Asia: From Web Logs to Wikipedia», comunicação apresentada à 13th Asian Media Information & Communications Centre Annual Conference, 1 a 3 de Julho de 2004, última consulta a 13 de Novembro de 2006.

Machuco Rosa, António

2002 «Redes e Imitação», Revista de Comunicação e Linguagens, n.º extra («A Cultura das Redes»), Lisboa, Relógio d’Água, pp. 92-114.

2005 «Do Espaço da Física Clássica ao Espaço das Redes», Revista de Comunicação e Linguagens, n.º 34-35 («Espaços»), Lisboa, Relógio d’Água, pp. 81-99.

Nature

2006a «Encyclopaedia Britannica and Nature: A Response», Março de 2006, última consulta a 13 de Novembro de 2006.

2006b Editorial sem título, Março de 2006, última consulta a 13 de Novembro de 2006.

Parker, Andrew

2005 Seven Deadly Colours, Londres, The Free Press/Simon & Schuster, 2006.

 


Notas:

1 Excepto se convenientemente oculta em notas de fim de texto.

2 Eis uma dessas referências livrescas invocadas na nota anterior: para a indissolúvel relação entre dois dos significados de «código» quando entramos no domínio das redes de comunicação -- código enquanto lei e código enquanto linguagem de programação --, cf. a obra de Lawrence Lessig, em particular Code and other Laws of Cyberspace (Lessig, 2000) com uma versão 2.0 prestes a sair no momento em que se escrevem estas linhas.

3 Note-se quão difícil é evitar um vocabulário topológico, apesar da alegada acentralidade da web.

4 Por exemplo, o domain name associado a um site. Cf. o caso do cantor Bruce Springsteen, cujo site oficial possui a extensão .net pelo facto de www.brucespringsteen.com ter sido previamente registado (juntamente com outros domínios similares) pelo cybersquatter Jeff Burgar, sendo ainda hoje «The Unauthorized Bruce Springsteen Web Site» apesar de não ser actualizado desde 2001. Também já não é possível encontrar online rasto das notícias desse caso, mas as actividades de Jeff Burgar continuam a ser ocasionalmente referidas, como na recente derrota na disputa legal pelo domínio www.tomcruise.com (cf. http://www.eonline.com/News/Items/0,1,19580,00.html).

5 É já bastante significativa a quantidade de projectos de investigação, a nível internacional, que procura mapear a World Wide Web. Um (sempre provisório) mapeamento do domínio .pt foi efectuado no projecto «Tendências da Cultura das Redes em Portugal», realizado pelo Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens. Confirmaram-se, a nível local, algumas características globais da WWW, como é o caso da distribuição de links pelas páginas segundo uma lei de potência, configuração que parece confirmar o efeito «rich get richer» (cf. Machuco Rosa, 2005, em especial as pp. 91-93).

6 Feliz acaso da língua portuguesa, «demand» e «search» são cobertos por uma mesma palavra: «procura».

7 Servimo-nos aqui do título de uma das novelas mainstream de Philip K. Dick, Confessions of a Crap Artist, cujo protagonista é justamente um desses colectores de «factos» e teorias quase sempre pseudocientíficos dada a sua incapacidade de destrinçar entre o comprovado, o plausível e o fabuloso.

8 Num artigo com estas características, não encontramos melhor forma de confirmar (ou desmentir) a nossa argumentação que não seja o recurso à própria Wikipedia como fonte. Para evitar contudo que a bibliografia supere em tamanho o próprio corpo do texto, não damos conta, excepto nos casos em que tal se justifique, das entradas consultadas, e muito menos da respectiva URL, que pode ser encontrada através de uma simples busca nas páginas de entrada da Wikipedia inglesa (http://en.wikipedia.org/) e da portuguesa (http://pt.wikipedia.org/).

9 Estamos de novo a simplificar, aglutinando alguns dos sete passos necessários (cf. http://en.wikipedia.org/wiki/Nupedia#The_editorial_process).

10 Não havendo aqui espaço para explicar em pormenor o que é um wiki, remetemos para a respectiva entrada na Wikipedia, em http://en.wikipedia.org/wiki/Wiki. No que respeita ao género gramatical -- «o» wiki ou «a» wiki --, as entradas correspondentes das línguas de origem latina mais comuns (espanhol, francês, português e italiano) referem-se-lhe como sendo uma palavra masculina, e é essa a opção aqui seguida.

11 Ainda hoje em funcionamento, em http://c2.com/cgi/wiki?FrontPage.

12 A ressalva pretende contemplar diversíssimos casos, como o dos wikis privados, em que, no limite, até a consulta exige que o utilizador seja «certificado», e situações -- ocasionais na própria Wikipedia -- de «páginas congeladas» ou de edição restrita a alguns utilizadores credenciados como agindo de boa-fé.

13 Até 5 de Dezembro de 2005, poder-se-ia ter dito «livre criação e edição de artigos». Devido a um polémico caso que envolvia uma alegação de que o jornalista John Seigenthaler, Sr. (numa entrada com o seu nome em http://en.wikipedia.org/wiki/John_Seigenthaler_Sr.) teria sido um dos suspeitos nos assassinatos dos Kennedy, a criação de artigos passou a ser restrita a utilizadores registados; a edição, contudo, continua a poder ser feita tanto por estes (que possuem um username) quanto pelos anónimos (caso em que fica apenas registado o IP a partir do qual deram o seu contributo).

14 A própria Wikipedia apresenta-as de diversas formas: há os «Five pillars of Wikipedia» («Wikipedia is an encyclopedia», «Wikipedia has a neutral point of view», «Wikipedia is free content», «Wikipedia has a code of conduct» e o só aparentemente autocontraditório «Wikipedia does not have firm rules»), cada um subdividindo-se em recomendações mais detalhadas; o «Simplified ruleset», que consiste em dezasseis «regras de ouro» para o potencial autor, e uma lista com as quarenta e duas «policies» oficiais e modos de salvaguardá-las.

15 Também interessante, mas menos relevante para os nossos propósitos, é o artigo «Participatory Journalism and Asia: From Web Logs to Wikipedia» (Lih, 2004b), cujo foco se restringe aos países asiáticos.

16 Conservando o mesmo exemplo, entre 6 e 25 de Abril de 2004 (já algumas semanas passadas sobre os atentados), a entrada «11_March_2004_Madrid_attacks» mantinha uma média de 8789 alterações diárias (cf. Lih, 2004a, p. 17).

17 O autor invoca a necessidade de uma metodologia mais aprofundada do que a que utilizou para que possa ser possível distinguir entre contribuições «positivas» e vandalizações. Segundo afirma, «Detecting vandalism can be done heuristically, since most Wikipedia regulars will mark vandalism or non-useful edits with a comment such as “Reverting…” or “rv” to indicate the elimination of unwanted content» (Lih, 2004a, p. 20), mas essa condição nem sempre se verifica. Na metodologia que utilizou, todos os contributos, incluído as vandalizações, são contabilizados enquanto tal.

18 Por questões de espaço, simplificamos os passos metodológicos seguidos. Remetemos para Giles, 2005b para uma descrição mais detalhada.

19 A recolha final de dados foi feita no dia 13 de Novembro de 2006, não sendo tidas em conta eventuais alterações posteriores.

20 Em fase de tradução, e portanto parcialmente em língua inglesa.

21 Não há uniformidade quanto à diferença entre as verdadeiras referências bibliográficas (i. e., a livros ou artigos, mesmo que em versão online) e as meras referências externas (i. e., links sugeridos). Ainda que fosse aconselhável, numa análise mais profunda, tomar ambas e num momento posterior fazer a diferenciação segundo algum tipo de critério, optámos por apenas contabilizar as referências bibliográficas sob a secção do artigo assim intitulada.

22 Note-se, por exemplo, como no primeiro caso se procura definir o fenómeno físico que recebeu esse nome para só depois assinalar uma das suas aplicações práticas, enquanto o segundo começa pela técnica para só depois explicar o efeito. Vale à versão portuguesa o facto de mencionar o ano em que o efeito foi descoberto, ainda que não haja qualquer referência à nacionalidade de John Tyndall.

23 Perdoe-se o termo algo desajeitado, mas necessário para evitar o uso de «reflexão», que só seria estritamente adequado no caso dos pigmentos.

24 Ainda assim, oito vezes menos do que a congénere inglesa (um pouco menos de duzentos mil artigos para quase um milhão e meio).

25 Cf. a categoria «Telenovelas_da_Rede_Globo», assim como cada uma das muitas entradas para as quais ela aponta.

26 Apesar do objectivo algo distinto, está actualmente em curso um novo spin-off da Wikipedia, uma versão em «Simple English» destinada a crianças e a iniciados no inglês como língua estrangeira (cf. http://simple.wikipedia.org/wiki/Main_Page). Conta, à data em que escrevemos, com cerca de doze mil artigos, o que corresponde a um significativo 48.º lugar num ranking de número de artigos.

27 Não o discutimos neste artigo, mas a nossa experiência leva a reforçar a recomendação assim que se entra no domínio das ciências sociais e humanas, onde as discrepâncias se tornam ainda mais gritantes.

 

 


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Texto: 22/Nov/06
Actualização: 13/Mar/08

Last Updated on Tuesday, 03 November 2009 15:45