Transmissões Ocultas

A Fantasia Gnóstico-Científica em Philip K. Dick

 

Colóquio «Gnose e Gnosticismo: Genealogias, Emergências», Porto, Ateneu Comercial do Porto, 15 de Novembro de 2008
Organização conjunta do Instituto São Tomás de Aquino, do Centro de Estudos do Pensamento Português (CEPP) da Universidade Católica Portuguesa, do Grande Oriente Lusitano, e do Instituto Investigación sobre Liberalismo, Krausismo y Masonería, da Universidade de Comillas, a publicar.
Licença Creative Commons: distribuição autorizada para usos não comerciais; interdita a cópia, modificação ou qualquer tipo de uso que não mencione a autoria original.

 

«Almost all knowledge, after all, fell into that category. It was either perfectly simple once you understood it, or else it fell apart into fiction. As a Jesuit -- even here, fifty light-years from Rome -- Ruiz-Sanchez knew something about knowledge that Lucien le Conte des Bois-d’Averoigne had forgotten, and that Cleaver would never learn: that all knowledge goes through both stages, the annunciation out of noise into fact, and the disintegration back into noise again. The process involved was the making of increasingly finer distinctions. The outcome was an endless series of theoretical catastrophes.

The residuum was faith.»

James Blish, A Case of Conscience (1958), p. 25

 

Diz Erik Davis, em diversos pontos de Techgnosis: Myth, Magic and Misticism in the Age of Information (Davis, 1998), que uma parte não negligenciável da literatura de ficção científica contém elementos (ora latentes, ora declarados) de dualismo e gnosticismo. Digamos, correndo o risco de simplificar demasiado, que se trata do espírito dum tempo que nos trouxe também a teoria da informação e a cibernética1. Se nos contentássemos com uma ilustração óbvia, bastaria de resto acompanhar Davis, que a determinado ponto da sua argumentação recorda o inusitado caso de L. Ron Hubbard, que de escritor do género -- ao que dizem medíocre mas popular -- passou a fundador da mediática Igreja de Cientologia. Ainda que lateral à questão que nos propomos tratar, vale a pena atentar na descrição que Davis faz dessa autodenominada igreja:

 
«Take Scientology, whose far cruder attempt to spiritualize the man-machine has made it the world’s first corporate cybernetic mystery cult.

[...]
In a history of Scientology entitled Religion, Inc., the British journalist Stewart Lamont noted that for Scientologists, “[...] it was the age-old heresy of gnosticism repackaged in a way to appeal to twentieth-century scientific man”. [...] Scientology claims “to increase spiritual freedom, intelligence, ability, and to produce immortality.” Once the E-meter has erased all the instincts, memories, and pains that define our personalities, we are left with what Hubbard calls the “thetan”, an immortal essence that he defines as the incorporeal part of us that is “aware of being aware”. Taking Cartesian dualism into the stratosphere, Hubbard imagined an alien spiritual entity that distinctly resembles the “spark” described by the Gnostics of yore.» (Davis, 1998, p. 137 e 140)2

 

Com Philip K. Dick, conhecido autor de Do Androids Dream of Electric Sheep?, cuja adaptação ao cinema é o filme (ainda e cada vez mais) de culto Blade Runner, a questão não é tão simples. Dick cresceu no ambiente laico, se não mesmo abertamente ateu, de Berkeley, na zona da Baía de S. Francisco. As suas obras, contudo, desde cedo -- falamos do início dos anos 50 -- procuraram aproximar a paixão pela fantasia e pela ficção científica com um interesse pela filosofia que o conduziu também -- enquanto autodidacta -- à história das religiões, em particular o cristianismo e os «para-cristianismos». Alguns dos primeiros contos já o demonstram, mesmo que com uma superficialidade mais difícil de contornar na ficção curta, mas também fruto da sua juventude. «The Skull», publicado em Setembro de 1952, é uma variação sobre um topos do subgénero das viagens no tempo: o loop temporal que conduz ao (auto)cumprimento de uma profecia. Conger, a personagem principal, um criminoso a cumprir pena, é enviado para o passado, em troca da liberdade, para assassinar o mártir fundador de uma religião considerada por alguns interesses como perigosa. A sua identidade é desconhecida, mas Conger poderá encontrá-lo guiando-se pelo crânio que os seus contratantes lhe entregam. Ao fazer a viagem para o ano de 1960, para o local dos acontecimentos que originaram a religião (a «First Church»), o protagonista descobre que as marcas dos maxilares do crânio coincidem com as suas e, tomando consciência da impossibilidade de alterar a História, aceita tornar-se no mártir, vítima em vez de assassino. Ao ser morto, sela a profecia com palavras que recita de memória, palavras que fazem dele também uma figura crística:

 
«“I have an odd paradox for you”, he said. “Those who take lives will lose their own. Those who kill, will die. But he who gives his own life away will live again!”» (Dick, 1952, p. 65)

 

Ainda que outras ilustrações pudessem ser apresentadas, avançamos para o flagrante caso da primeira novela aceite para publicação autónoma3, The Cosmic Puppets. A escolha recai aí sobre o zoroastrismo ou mazdeísmo: num vilarejo do interior dos Estados Unidos, Ahriman mantém Ahura Mazda (Ormazd, na novela) sob domínio através da amnésia -- o que faz dele um deus ignorante do seu estatuto de divindade --, e é Ted Barton, a personagem através de cujo foco a narrativa é contada, que vai reabilitá-lo para que recomece a luta cósmica entre o Bem e o Mal. Estamos ainda longe do gnosticismo, num sentido estrito; em contrapartida, encontra-se aqui pela primeira vez uma referência (ainda que obfuscada pela mudança de título entre a primeira versão da narrativa, publicada na revista Satellite como «A Glass of Darkness», e a versão «livro»), à passagem da I Carta aos Coríntios onde o conhecimento humano ainda não apocalipticamente revelado é descrito como uma visão através de um vidro ou espelho fosco4. Essa é uma referência que se revelará como central a boa parte da obra de Philip K. Dick. Por exemplo nalguns títulos: a sua primeira colectânea de contos, como que redimindo a alteração do título para The Cosmic Puppets, chamar-se-ia A Handful of Darkness, e, já na década de 70, uma alusão ainda mais explícita na novela -- há não muito tempo adaptada ao cinema -- A Scanner Darkly. O que mais importa destacar é, contudo, a interpretação gnosticizante que Dick dará dessa e doutras passagens bíblicas, e com progressiva evidência.

Em The Man in the High Castle, publicado em 1962, tais elementos surgem ainda algo dispersos, parecendo de resto secundários perante um cenário predominantemente taoista e dominado por referências ao I Ching, ou «Livro das Mudanças», que Dick afirmava ter sido um instrumento indispensável para a escrita dessa novela. Num artigo de 1999, intitulado «Redemption in Philip K. Dick's The Man in the High Castle», Lorenzo DiTommaso trá-los para primeiro plano, advertindo contudo que:

 
«The aim of this essay is not to establish that Dick consulted Paul’s epistle to the Galatians or the gnostic Revelation of Adam before typing each chapter [...]. Instead, this paper argues that the redemptive journeys of M[an in the] H[igh] C[astle] [...] are not only expressed by but are also best understood in basic and generic Gnostic categories.» (DiTommaso, 1999, p. 91)5

 

Sendo escusado, inclusive por questões de concisão, repetir todo o processo argumentativo de DiTommaso, vale contudo a pena ilustrá-lo num ou noutro ponto. Como exemplo, todas as personagens mais significativas de The Man in the High Castle passam (como o indica o título do ensaio) por um processo de redenção, redenção essa que depende, importa sublinhar, da tomada de consciência de um mundo para lá da aparência, segundo um processo de desvelamento que tem muito de iniciático...

 
«In MHC, the five major characters -- Tagomi, Childan, Frank Frink, Juliana Frink, and Wegener -- [...] live and operate under the aegis of the sensible world [...]. The manner in which these characters come to identify their place in this world and subsequently work to recognize the intelligible realm lies, I believe, at the centre of MHC. This progression is like a journey from one reality to another, [...] an ascension from ignorance to knowledge.» (idem, p. 93)

 

... mas também de místico, o que é especialmente visível na subnarrativa sobre a jóia que é fabricada por Frank Frink, entregue à consignação a Childan, e finalmente comprada por Tagomi, que, ainda antes de ser por ela transportado a um mundo paralelo (onde a Alemanha foi derrotada na II Guerra Mundial), nela encontra wu, um valor estético do taoismo. Ora, segundo DiTommaso:

 
«These ideas of wu and wei find parallels in the language and presuppositions of the intelligible and sensible worlds, and the roles that dualistic cosmologies play in MHC thus make it likely that Dick required the intrinsic meaning of the wu to be understood in the light of the contrast and conflict between these two worlds.» (idem, p. 103)

 

O próprio Dick afirma-o através de uma das personagens, Paul Kasoura:

 
«wu is customarily found in the least imposing places, as in the Christian aphorism, “stones rejected by the builder”. One experiences awareness of wu in such trash as an old stick, or a rusty beer can by the side of the road.» (Dick, 1962, p. 176)

 

Lorenzo DiTommaso esclarece-nos:

 
«“Stones rejected by the builder” is an allusion to Psalms 118: 22-23, which was commandeered by the early Christians an applied to Jesus’ role as the agent of salvation. Given that such a connection between the Taoist references to wu and a Christian proof-text is not remotely implied by either body of sacred literature, if follows that this is an overt clue that Dick deliberately framed MHC in Christian terms.» (DiTommaso, 1999, p. 103)6

 

Termos cristãos, é certo, mas tomados segundo uma interpretação cara à gnose. Por esta altura, Dick, em boa parte por influência da sua terceira mulher, aproximara-se da Igreja Episcopaliana, institucionalizando o que antes parecia limitar-se a uma atracção intelectual. Como consequência, é visível uma crescente familiaridade com as Escrituras, já não redutível à I Epístola aos Coríntios7.

Dick nunca foi, contudo, nem um praticante fervoroso nem um seguidor de ortodoxias, não sendo de todo descabido afirmar que a curiosidade filosófica igualava, se é que não superava, a fé. Sinal disso é a sua longa amizade com o bispo James Pike, que viria a inspirar pelo menos duas personagens das suas novelas (sendo a mais conhecida Timothy Archer, na última que publicou em vida). Pike foi julgado por heresia em 1966, resignando nesse mesmo ano, de livre vontade, ao sacerdócio, e em 1969 viria a falecer, no deserto de Israel, numa peregrinação intelectual ao local onde foram encontrados os Manuscritos do Mar Morto. Não é por isso descabido afirmar que Pike e Dick terão alentado mutuamente especulações teológicas afins ao gnosticismo; feitas as contas, sendo Philip K. Dick um escritor de ficção -- melhor: de ficção científica -- as deste último terão pelo menos ganho em excentricidade.

Counter-Clock World, novela escrita em 1965 (e portanto com James Pike ainda «no activo»), dá os primeiros sinais de uma consolidação da temática teológica. Nesta narrativa algo incongruente, em que o tempo corre no sentido inverso e os mortos são devolvidos ao mundo dos vivos para irem regredindo até voltarem a um útero, uma das personagens é o «ressuscitado» bispo Thomas Peak, e cada capítulo abre com uma epígrafe de doutores da Igreja ou teólogos eminentes como Erígena, Sto. Agostinho, Boécio, S. Boaventura e S. Tomás de Aquino.

Não há contudo grandes indícios que favoreçam uma leitura gnóstica em Counter-Clock World. Esta é contudo reforçada no importante conto «Faith of our Fathers», terminado no início de 1966 e publicado no ano seguinte. Num Vietname futuro, definitivamente convertido ao comunismo, um funcionário estatal em ascensão descobre, graças a uma droga anti-alucinatória e antipsicótica, que o líder nacional, o «Grande Benfeitor», não é humano e sim um alienígena. À medida que ascende na hierarquia, com o auxílio da organização clandestina de resistência que lhe fornecera o fármaco, conhece pessoalmente o Grande Benfeitor. Numa reviravolta narrativa que encerra o conto, este prova-lhe ser muito mais do que um simples ser extraterrestre: é um deus, mas um deus tão depressa benigno quanto maligno, de certa forma indo ao encontro de algumas interpretações gnósticas que vêem no deus do Antigo Testamento um mero demiurgo, justo nalguns raros momentos mas nunca verdadeiramente bondoso, pois o seu mundo material não passa de uma emulação da verdadeira criação divina.

Na conhecida novela Ubik encontramos também alguns tons gnósticos, particularmente quando o leitor é levado a hesitar acerca de qual das realidades é real e qual é mera alucinação -- qual é «pleroma» e qual é «kenoma», poderia dizer-se -- e leitura similar pode ser feita de Do Androids Dream of Electric Sheep? e de Galactic Pot-Healer, mas estamos ainda longe do «mergulho» teológico da década de 70. Pelo meio, uma profunda depressão (em parte resultante de questões familiares, em parte do consumo abusivo de anfetaminas), uma tentativa de suicídio por ocasião de uma visita ao Canadá enquanto escritor convidado para uma convenção de ficção científica, uma cura de desintoxicação, e finalmente um progressivo regresso à escrita.

Aproximadamente a 20 de Fevereiro de 1974, pouco tempo depois de retomada e terminada a redacção de Flow my Tears, the Policeman Said8 e durante um período que se estenderá ao longo do mês seguinte, precipita-se uma série de experiências que levará a que, daí em diante, toda a sua produção -- ficcional e ensaística, se assim se pode chamar -- abrace definitivamente essa dimensão teológica cuja tendência se revelara, como vimos, muito antes. Philip K. Dick foi acometido por repetidas alucinações, entre as quais se pode destacar, segundo as suas descrições, a visão de um feixe de luz rosa, de um peixe (símbolo dos cristãos primitivos) de reflexos dourados, de uma sequência de quadros abstractos, a audição de palavras numa língua desconhecida que Dick declararia mais tarde tratar-se do grego koiné do início da era cristã, e ainda a estranha intuição -- estranha por ter sido confirmada por diagnóstico médico -- de que o seu filho mais novo, Christopher, sofreria de uma hérnia inguinal.

Deixemos de lado a fonte das suas alucinações. Depois de uma década de abuso de anfetaminas, seguida de um período de desintoxicação, é bastante provável que um excesso de vitaminas, tomadas em autoprescrição, aliada ao pentotal de sódio receitado para aliviar as dores de um dente do siso extraído alguns dias antes, causem semelhantes efeitos, apesar de não explicarem a sua recorrência ao longo de um mês. Interessam, contudo, a experiência individual e, acima de tudo, as múltiplas e por vezes abstrusas interpretações que o inspirarão a escrever nos quase oito anos seguintes, até à sua morte devido a um acidente vascular. Como afirma Lawrence Sutin, seu biógrafo,

 
«Phil’s accounts are piecemeal, but the long sequence of visions seems to have started this day [20 de Fevereiro de 1974], with a sudden triggering of what he experienced as past lives and genetic memories. Phil felt certain for the first time that he was -- not as an individual, but as a spiritual entity -- immortal.
[...]
Phil adopted a term first used by Plato, anamnesis, to describe the experience of recollecting eternal truths, the World of Ideas, within ourselves. But what could account for the sudden anamnesis? [...]
Phil never settled on a physical cause.» (Sutin, 1989, pp. 210 e 211)

 

A escrita foi então o meio através do qual se confrontou com esses acontecimentos em última análise inexplicáveis. Esses oito anos de especulações encontram-se num diário predominantemente manuscrito, a sua Exegesis. Segundo Sutin, responsável pela edição de alguns excertos, um trabalho que ascende a cerca de oito mil páginas. Obra destinada a um consumo privado, o seu interesse seria marginal, não se desse o facto de ser o flagrante ponto de partida para a ficção que daí em diante escreveu e publicou. Esta terá de bastar-nos, contudo.

Não sendo possível uma análise aprofundada dessas obras (A Scanner Darkly, por exemplo, terá de ficar de fora), concentramo-nos naquelas que constituem, segundo o próprio Philip K. Dick, uma trilogia: VALIS, The Divine Invasion e The Transmigration of Timothy Archer9. Em todas elas encontramos alusões à Exegesis, se não mesmo passagens daí recicladas e adaptadas. E não só da Exegesis, pois, como o sugere o revelador título da tese de doutoramento de Pamela Jackson, The World Philip K. Dick Made,

 
«Dick’s quest for the Real takes him back, ironically, into fiction.
[...]
Has he fallen into one of his own novels? Or could it be that his own novels have been telling the truth about our world all along -- our real world whose perverse, science fictional, even demonic nature is only becoming evident? Either way, his novels are now acquiring, for him, the “ring of revealed truth”. The writer begins to study his books like a detective, looking for the cosmic secrets he now suspects might be encoded in their science fiction surfaces.» (Jackson, 1999, p. 3, ênfase nossa)

 

Já em Radio Free Albemuth, primeira versão (abandonada) de VALIS que mereceria uma edição póstuma, Dick desdobra-se em duas personagens, uma literalmente homónima -- Phil Dick --, e outra que simboliza a sua atracção por interpretações gnósticas ou similares da realidade, Nicholas Brady. Trata-se contudo, e literalmente, de um tecnognosticismo, pois a mensagem de um deus desconhecido vem através de uma inteligência extraterrestre ou artificial:

 
«It was the voice of the AI unit which I saw in dreams as the “Roman sibyl”. In point of fact it was not the Roman sibyl, not at all, and really nor a woman; it was a totally synthetic entity. [...]
They had never visited Earth -- no actual extraterrestrials had landed ships and walked around here -- but they had informed certain humans now and then throughout the ages, especially in ancient times.» (Dick, 1985, p. 151)

 

Se se quiser, a cibernética ao serviço de um deus benigno, do único deus digno desse nome, que, em momentos cruciais da História -- no caso, a ascensão de uma figura política à imagem de Nixon -- intercede pela redenção dos habitantes da Terra através de mensagens em código? Por que não imaginar que o faz através de um sofisticado transmissor na estrela de Albemuth?10

Entre gnosticismo e teoria da conspiração, a personagem Phil Dick serve de contraponto às especulações de Brady, olhando-as com algum cepticismo mas nunca as desacreditando por completo. Em VALIS, exacerbar-se-á esta estratégia. Por um lado, as suas duas facetas11 distanciam-se: Phil é muito mais céptico do que o seu homónimo em Radio Free Albemuth, enquanto Horselover Fat (que toma o lugar de Nicholas Brady) desliza para a instabilidade mental. Em contrapartida, enquanto na versão preliminar se tratava de duas personagens claramente distintas, alternando no papel de narrador, aqui Horselover Fat e Phil Dick revelam-se como uma e a mesma pessoa, até no interior da diegese. «I am Horselover Fat, and I am writing this in the third person to gain much-needed objectivity.» (Dick, 1981, p. 11), diz-nos a certa altura o último, esclarecendo um pouco à frente que «I am, by profession, a science fiction writer. I deal in fantasies. My life is a fantasy.» (idem, p. 12) Semelhante dispositivo narrativo cria a desejada distanciação entre a suposta racionalidade do autor e do narrador perante as inusitadas teorias de Horselover Fat, nem que seja porque evita que, na sua multiplicidade à beira do incoerente, uma delas emerja como a dominante:

 
«Fat kept working this particular theme over and over again [...]. He felt sure the universe had begun to talk to him. Another entry in his journal reads:
#36. We should be able to hear this information, or rather narrative, as a neutral voice inside us. But something has gone wrong. [...] Something has happened to our intelligence. [...]
To which I personally am tempted to say, Speak for yourself, Fat.» (Dick, 1981, p. 25)

 

Há contudo um elemento a ligá-las -- nada menos do que a crença, tipicamente gnóstica, de que aquilo que experienciamos diariamente é falso, de que vivemos numa «Black Iron Prison» (expressão de Dick) que nos oculta a verdadeira realidade:

 
«[...] during the interval in which he had experienced the two-world superimposition, had seen not only California, USA, of the year 1974 but also ancient Rome, he had discerned within the superimposition a Gestalt shared by both space-time continua, their common element: a Black Iron Prison.» (idem, p. 54)

 

O próprio Horselover Fat reconhece a sua atracção pelas interpretações gnósticas, como na seguinte passagem, de um humor bastante sombrio, quando este, na sequência de uma tentativa de suicídio, está a ter sessões de terapia com Maurice, um psicólogo fervorosamente crente nos dogmas do cristianismo mas ignorante de tudo o que se afaste do cânone oficial:

 
«Maurice, raising his voice, shouted, “Then isn’t it an offense against God to ice yourself? Did you ever think of that?”
“I thought of that”, Fat said. “I thought of that a lot.”
“Well? And what did you decide? Let me tell you what it says in Genesis, in case you’ve forgotten.” [...]
“Okay”, Fat broke in, “but that’s the creator deity, not the true God.”
“What?” Maurice said.
“Fat said, “That’s Yaldaboath. Sometimes called Samael, the blind god. He’s deranged.”
“What the hell are you talking about?” Maurice said. [...] “Who made up this stuff? You?”
“Basically”, Fat said, “my doctrine is Valentinian, second century C. E.”
“Who’s this “Yaldaboath”? Yahweh created the world! It says so in the Bible!”» (Dick, idem, pp. 96-97)

 

Aproximadamente a meio da novela, as quatro personagens principais assistem a um filme intitulado Valis, cuja intriga corresponde aproximadamente à de Radio Free Albemuth, e portanto com claras afinidades com a experiência mística de Fat (na sua interpretação mais política e «conspiratória»). Impelidos a entrar em contacto com o realizador, Ted Lampton, descobrem que este e a sua família acreditam em teorias ainda mais rebuscadas -- teorias onde cabem, por exemplo, a proporção de ouro derivada da série de Fibonnacci, as teorias cabalísticas de interpretação, e mesmo a crença de que são provenientes dum planeta de Albemuth. Tudo razões para devolver Fat ao cepticismo, o que contudo ocorre duma forma paradoxal: a filha dos Lampton, chamada ora Mini ora Sophia, cura Dick/Fat da dupla personalidade que vinha acompanhando o leitor desde o início da novela:

 
«Horselover Fat was gone forever. As if he had never existed.» (idem, p. 212)

 

Intercessão divina ou, regressando à hipótese «tecnológica», uma acção proveniente de uma inteligência artificial, o «Vast Active Living Intelligent System» cujas iniciais soletram VALIS?

 
«As we walked away from the child, I said, “Her voice is the neutral AI voice that I’ve heard in my head since 1974.”
Kevin said hoarsely, “It’s a computer. That’s why it only answers certain questions.”
[...]
“An AI system”, Eric said. “An artificial intelligence.”
“A terminal of VALIS”, Kevin said. “An input, output terminal of the master system VALIS.”
“That’s right”, Mini said.
“Not a little girl”, Kevin said.
“I gave birth to her”, Linda said.
“Maybe you just thought you did”, Kevin said.» (idem, p. 215)

 

Fenómeno tecnológico ou milagre, essa reunificação das personalidades será contudo insuficiente, pois a morte de Mini, alguns capítulos depois, faz com que Horselover Fat volte a emergir de Phil Dick. Fat, com uma nova e mórbida crença, parte em busca da Santa Sofia (que havia sido a criança Mini Lampton), reproduzindo na ficção a demanda pela sabedoria gnóstica que, na vida real, conduzira o bispo James Pike a Jerusalém e à sua morte. No final da novela, resta-nos Phil Dick, especado na sala frente à televisão enquanto aguarda notícias de Fat:

 
«“Then the true name for religion”, Fat said, “is death.”
“The secret name”, I agreed. “You got it. Jesus died; Asklepios died -- they killed Mani worse than they killed Jesus, but nobody even cares; nobody even remembers. [...] Death is the real name for it; not God, not the Savior, not love -- death.”
[...]
Seated before the TV set I watched and waited for another message. [...].
My search kept me at home; I sat before the TV set in my living room. I sat; I waited; I watched; I kept myself awake. As we had been told, originally, long ago, to do; I kept my commission.» (idem, pp. 246 e 255-256)

 

Fat parte, mas a influência gnóstica representada pela personagem permanece, a ponto de poder dizer-se, como o fez Kim Stanley Robinson, que a novela seguinte, The Divine Invasion, deve ser lida como se tivesse sido escrita por Horselover Fat, enquanto The Transmigration of Timothy Archer, novela predominantemente realista, assumirá a voz de Phil Dick, ainda intrigado com os acontecimentos do seu passado recente, mas acima de tudo desiludido e distanciado.

 
«Following VALIS, and the explication of this split personality, we have two more books, a science fiction novel and a realist novel. We could say, then, that The Divine Invasion, the science fiction novel, is the book written by Horselover Fat, while The Transmigration of Timothy Archer, the realist novel, is the book written by “Phil Dick”. The form of the trilogy is therefore a sort of “V”, with VALIS at the base, and the other two books at the end of each arm.» (Robinson, 1984, pp. 111-112)

 

Em The Divine Invasion, os delírios interpretativos que Dick transpusera da Exegesis para VALIS continuam presentes, mas desta vez, contrariamente ao que seria de esperar de algo escrito por «Horselover Fat», retoma-se o típico contrato de leitura baseado na «suspension of disbelief». Ao mesmo tempo, retorna-se às origens, ou melhor, a um topos caro ao gnosticismo que estava já presente em The Cosmic Puppets, o do deus que se esqueceu do seu estatuto divino. Também a intriga gira em torno de um regresso das personagens às suas origens. Expandindo um pouco, conta-se aqui acerca duma Segunda Vinda de Cristo (ou da Deidade ela mesma) em versão SF: em época de exploração espacial12, Emmanuel vem literalmente dos céus, numa nave intergaláctica, tendo sido concebido por um casal de terrestres em missão numa estação espacial num planeta distante. A «anunciação» é feita a Herb Asher, o «pai» de Emmanuel, pelo próprio deus do Antigo Testamento, que habita esse planeta13. Rybys Rommey, a mãe, padece de cancro, e não sobreviverá ao regresso à Terra devido a um acidente com a nave; Herb, também vítima desse acidente, é colocado em suspensão criogénica. A outra personagem que os acompanha na gravidez e na viagem é Elias Tate -- o profeta Elijah --, que se substituirá aos pais na tarefa de criar Emmanuel. A última figura de relevo para esta breve leitura é Zina, uma criança aproximadamente da idade de Emmanuel que está continuamente a propor-lhe enigmas que o libertarão progressivamente, por anamnese, da sua ignorância, para que possa combater Belial, o demónio incarnado num bode.

Tanto ou mais do que em VALIS, os conceitos dickianos de «Black Iron Prison» e «Palm Tree Garden» (bem como todos aqueles de onde derivam, como a proporção dourada) são aqui fulcrais. O momento mais decisivo para Emmanuel ocorre quando toma consciência de que, como em certas interpretações cabalísticas, ele é apenas a metade masculina de Deus, de que Zina é a feminina:

 
«“You are Diana, the fairy Queen”, he said. “You are Pallas Athena, the spirit of righteous war; you are the spring Queen, you are Hagia Sophia, Holy Wisdom; you are the Torah which is the formula and blueprint of the universe; you are Malkuth of the Kabala, the lowest of the ten sefiroth of the Tree of Life; and you are my companion and friend, my guide. But what are you actually? Under all disguises? I know what you are and --” He put his hand on hers. “I am beginning to remember. The Fall, when the Godhead was torn apart.”» (Dick, 1982a, p. 192)

 

Com uma capacidade sincrética -- poderíamos dizer ecuménica ou apenas herética? -- mais apurada do que a deriva das interpretações em VALIS, em The Divine Invasion fica apenas por resolver o problema ético e teológico que consiste na capacidade de traçar a linha que diferencia a justiça divina da vingança divina. Com a reunião de Emmanuel e Zina, Belial é derrotado e regressa à sua forma inicial, próxima da dum anjo que havia caído, mas -- surpresa -- isso não equivale ao fim do Mal no mundo, e é agora que tem início a «Grande Tribulação». Emmanuel, entretanto, desaparecera.

 
«“That thing on the roof”, Herb Asher said. But Emmanuel had disappeared, now; only he himself and Linda Fox remained.
“I’ll call the city”, Linda Fox said. “They’ll haul it away. They have a machine that does that. Hauls away the poisonous snake. [...] Turn on the radio and get the news. There will be wars and rumours of wars. There will be great upheavals.”»
[...]
«Later, he and Linda Fox went back up on the roof to view the remains of Belial. But to his surprise he saw not the carcass of a wizened goat-thing; instead he saw what looked like the remains of a great luminous kite that had crashed and lay in ruins all across the roof.
Somberly, he and Linda gazed at it as it lay broken everywhere, vast and lovely and destroyed. In pieces, like damaged light.
“This is how he was once”, Linda said. “Originally. Before he fell. This was his original shape. We called him the Moth. [...]”
“Will he ever be again as he once was?” Herb Asher said.
“Perhaps”, she said. “Perhaps we all may be.”» (idem, pp. 237-238)

 

Há contudo uma outra interpretação para os acontecimentos da novela, interpretação essa ainda mais contaminada de gnosticismo. Em paralelo com a história de Emmanuel, Zina e Elias Tate, são-nos descritas as ilusões de Herb Asher em suspensão criogénica, onde vive uma realidade artificial. Aí, é concedida a Asher a possibilidade de viver a sua maior fantasia, conhecer (e eventualmente envolver-se romanticamente com) a cantora Linda Fox. De forma análoga a outras novelas, como Ubik ou A Maze of Death, onde também surgem realidades ilusórias, as pistas narrativas levam o leitor a gerar uma interpretação que permite, progressivamente e por tentativas, traçar as fronteiras entre a «realidade real» e um seu simulacro. No final, contudo, e tal como nestas novelas, a dúvida irá reinstalar-se. É certo que há um momento em The Divine Invasion em que, pela intervenção divina de Emmanuel, acreditamos que a ilusão de Herb Asher se irá tornar realidade:

 
«Emmanuel said, “I made him a promise and I do not lie.” I shall fulfill that promise, he said to himself. In this realm or in my own realm; it doesn’t matter because in either case I will make Linda Fox real. That is the power I have, and it is not the power of enchantment; it is the most precious gift of all: reality.”
[...]
“I say that the quality of realness is more important than any other quality, because once realness departs, there is nothing. A dream is nothing.”» (idem, p. 160)

 

Mas será essa a realidade definitiva, ou há ainda mais outra e outra camada a desvelar, como numa cebola? Quem diz a verdade: Belial, o bode, ou Emmanuel?

 
«“Grey truth”, the goat-creature continued, “is better than you have imagined. You wanted to wake up. Now you are awake; I show you things as they are, pitilessly; but that is how it should be. How do you suppose I defeated Yahweh in times past? By revealing his creation for what it is, a wretched thing to be despised.”» (idem, p. 228)

 

Quem é a Deidade e quem é um mero demiurgo, se à frente Linda Fox se anuncia como mais outra criatura celestial, o Advogado ou Auxiliador divino, enquanto Belial é o Acusador ou -- no final de que apresentámos um excerto -- a ainda mais enigmática Mariposa [Moth]? Ou simplesmente a confluência final das duas linhas narrativas está lá para demonstrar que toda a novela não passa dum produto da imaginação de Herb Asher (ou, se se preferir, de Horselover Fat), sugerindo dessa forma que também a nossa realidade empírica pode não passar de uma ilusão?

 

São grandes -- em Philip K. Dick, e em particular nestas novelas de tom fortemente teológico -- os riscos de uma incontinência interpretativa, que afinal não é mais do que, a uma escala menor, consequência da incontinência interpretativa por excelência que é o manuscrito da sua Exegesis. Poderá afirmar-se que aquilo que permitiu estancá-la (pelo menos provisoriamente, antes duma possível «recaída» em The Owl in Daylight, que nunca viria a escrever) foi um regresso ao realismo, logrado em The Transmigration of Timothy Archer. Tanto assim é que essa novela, a única em que o narrador coincide com uma personagem feminina (concebida à imagem, salvaguardadas as distâncias, do próprio Dick), gira justamente em torno da relação entre as interpretações e a vida quotidiana: como num «catch 22», temos de evitar que se contaminem mutuamente, mas ao mesmo tempo sabemos que isso é uma impossibilidade. Timothy Archer, mau grado a homenagem que por seu intermédio Dick faz ao bispo James Pike, retrata a incapacidade de libertar-se do mundo da teoria, mesmo quando esta se aproxima do absurdo e do incoerente14. É por isso que, apesar do episódio cómico em que Timothy, absorto em problemas teológicos, arrasta uma bomba de gasolina com o seu carro (cf. Dick, 1982b, p. 18), este é essencialmente uma figura trágica, que morre no deserto, em busca do sentido oculto das Escrituras, por não ter tido a prudência de levar água e mantimentos suficientes, transportando consigo em vez disso apenas um mapa e latas de bebida gaseificada (cf. idem, p. 213). Angel Archer, em contrapartida, representa a necessidade de «reengrenar» com o real, o quotidiano, independentemente de este vir algum dia a revelar-se como ilusório. A unir ambos, o amor aos livros e ao saber -- ou não fosse esse um dos significados da palavra «gnose» -, mesmo quando este amor é incapaz de travar-se a si mesmo:

 
«I am no different, then, from Timothy Archer. To me, too, books are real and alive; the voices of human beings issue forth from them and compel my assent, the way God compels our assent to world, as Tim said.
[...]
So for me in a certain unusual way -- for certain unusual reasons -- books and reality are fused; they join through one incident, one night of my life; my intellectual life and my practical life came together -- nothing is more real than a badly infected tooth -- and having done so they never completely came apart again.
[...]
And yet -- I feel that this was what Tim had not done; he had either not integrated the book and the pain, or, if he had, he had got it wrong. He had the tune but not the words. More correctly, he had the words but those words pertained not to world but to other words, which is termed by philosophy books and articles on logic “a vicious regress”.» (Dick, 1982b, pp. 147, 148 e 149).

 

 


Bibliografia

Butler, Andrew M.

1998 Techgnosis: Myth, Magic and Mysticism in the Age of Information, Nova Iorque, Three Rivers Press.

Davis, Erik

2000a Philip K. Dick: The Pocket Essential, Londres, Pocket Essentials.

Dick, Philip K.

1952 «The Skull», If, Setembro de 1952, repub. in Beyond Lies the Wub: The Collected Short Stories of Philip K. Dick Volume 1, Grafton e Londres, Millennium/Gollancz, pp. 47-65.

1957 The Cosmic Puppets, Londres, Voyager/Harper-Collins, 1998.

1962 The Man in the High Castle, Nova Iorque, Vintage, 1992.

1967a Counter-Clock World, Londres, Voyager/Harper Collins, 2002.

1967b «Faith of our Fathers», in Ellison, Harlan (org.), Dangerous Visions, Nova Iorque, Doubleday, 1967, repub. in We Can Remember it for You Wholesale: The Collected Short Stories of Philip K. Dick Volume 5, Londres, Millennium/Gollancz, 2000, pp. 197-222.

1969 Ubik, in Philip K. Dick: Five Great Novels, Londres, Gollancz, 2004, pp. 495-647.

1974 Flow my Tears, the Policeman Said, Londres, Gollancz, 2001.

1981 VALIS, Londres, Gollancz, 2003.

1982 The Divine Invasion, Nova Iorque, Vintage, 1991.

1985 Radio Free Albemuth, Londres, Voyager/Harper Collins, 1999.

DiTommaso, Lorenzo

1999 «Redemption in Philip K. Dick’s The Man in the High Castle», Science Fiction Studies, n.º 77 (vol. 26, pt. 1), Greencastle (IN), SF-TH/DePauw University, Março de 1999, pp. 91-119.

Jackson, Pamela Renee

1999 The World Philip K. Dick Made, tese de doutoramento em Retórica orientada por Marianne Constable, Berkeley (CA), University of California at Berkeley, 194 pp. policopiadas.

Robinson, Kim Stanley

1984 The Novels of Philip K. Dick, Ann Arbor (MI), UMI Research Press, 1984 (edição revista da tese de doutoramento em Literatura Inglesa com o mesmo título e orientada por George Slusser???, University of California at San Diego, 1982).

Sutin, Lawrence

1989 Divine Invasions: A Life of Philip K. Dick, Secaucus (NJ), Carol Publishing, 1991.

 


Notas:

1 Ou não tivesse Norbert Wiener escrito também contos de ficção científica, e declarado, talvez jocosamente, ser descendente do mítico rabino Loew, que na lenda se fez pai do Golem.

2 O «E-meter» ou «contador E» referido nesta passagem é, como o mesmo Erik Davis explica noutro ponto, o «electropsicómetro», que não é mais do que uma espécie de polígrafo ou «detector de mentiras» usado nas sessões de «auditing», uma espécie de confessionário e «penitenciário» electronicamente assistido: «the E-meter registers changes in galvanic skin response -- roughly speaking, the flow of electricity through the body. [...] eventually, the dials register a charge that indicates the presence of an engram » (Davis, 1998, p. 139)

3 Não foi contudo a primeira a ser publicada -- privilégio que coube a Solar Lottery --, e estritamente falando qualquer delas se tratava de uma republicação de magazines de ficção científica.

4 Por ser essa a versão da Bíblia a que Philip K. Dick sempre se reporta, e não por desprezo de qualquer das traduções portuguesas, reproduzimos essa passagem tal como consta da King James Version: «When I was a child, I spake as a child, I understood as a child, I thought as a child: but when I became a man, I put away childish things. / For now we see through a glass, darkly; but then face to face: now I know in part; but then shall I know even as also I am known. (1 Cor, 13 : 11-12)

5 DiTommaso dirá ainda, rematando com uma afirmação com a qual não podemos deixar de concordar, como se verá mais à frente: «Dick at this point in his career [...] seems to have had a general, conflated, appreciation of the various dualistic philosophies and that this appreciation was engaged and employed during the course of his writing MHC [...] Dick is not a systematic theologian until VALIS.» (DiTommaso, 1999, p. 98, ênfases nossas)

6 The Stones Rejected foi também o working title da novela (escrita em parceria com Ray Nelson) posteriormente renomeada como The Ganymede Takeover, o que pode ser tomado como mais uma prova do fascínio de Dick com diversas passagens bíblicas.

7 Mais um exemplo: a personagem que é o «homem do castelo alto», Hawthorne (como Nathaniel Hawthorne?) Abendsen (como a coruja de Minerva?), é o autor dum livro de ficção em que os Aliados vencem a II Guerra Mundial (invertendo a premissa desta novela de Dick), e esse livro intitula-se, numa alusão a Eclesiastes 12: 5, The Grasshopper Lies Heavy.

8 Flow my Tears... é um caso intrigante. Apesar de publicado pouco antes destas experiências que estamos a relatar, existem algumas passagens que são coerentes com uma interpretação «oculta» desses acontecimentos. Muito provavelmente estamos aqui perante mais uma prova de que Dick estaria desde há muito fascinado por -- ou pelo menos inconscientemente predisposto para -- interpretações à beira do esotérico.

9 Ao que tudo indica, The Owl in the Daylight, projecto apenas iniciado quando faleceu, seria um quarto volume, e portanto Dick caminhava para uma tetralogia.

10 Cf. a seguinte passagem: «These realizations came to me not as speculation or even as logical deduction, but as insights presented by me by the sympathetic AI operator at work at my station. She was making me aware of that which man had ceased to understand: his role and place in the system of things. [...] Over the ages God had played a great game for the relief of this planet, but lifting the siege had still not been accomplished. Earth was still an unlit button on the exchange board of the intergalactic communications network.» (Dick, 1985, p. 152)

11 Na verdade 4, se a elas acrescentarmos Kevin e David: Phil, Kevin e David, isto é, PKD.

12 The Divine Invasion é das poucas novelas em que não há uma datação da diegese, por arbitrária que seja -- a história de VALIS também não é datada, mas tal é desnecessário, pois tem lugar num presente ou futuro quase imediato. Em Philip K. Dick: The Pocket Essential, Andrew Butler fornece uma prática lista dessas datas, título a título (Butler, 2000a).

13 Um deus bastante peculiar, que, embora não se confunda -- de início -- com o demiurgo do mundo material segundo uma interpretação gnóstica (a bête noire de The Divine Invasion é um outro deus, Belial), tem algo de trickster: uma das formas que tem de ocupar o tempo é interferir com o equipamento electrónico de Herb Asher.

14 Talvez a mais perfeita ilustração seja o seguinte diálogo entre Angel e o bispo Timothy Archer, sobre uma interpretação do corpo divino da eucaristia como sendo um cogumelo com propriedades alucinogénicas:
«[Timothy] “They haven’t really published the important part. About the mushroom. They’re keeping that secret for as long as they can . However --”
“What mushroom?”
“The anokhi.”
I said, incredulous, “The anokhi is a mushroom?”
[...]
“They made mushroom bread out of it. They made a broth from it and drank the broth; ate the bread, drank the broth. That’s where the two species of the Host come from, the body and the blood. Apparently the anokhi mushroom was toxic but the Zadokites found a way to detoxify it, at least somewhat, enough so it didn’t kill them. It made them hallucinate.”» (Dick, 1982b, pp. 89-90)

 

 


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Texto: 13/Dez/08
Actualização: 30/Out/09

Last Updated on Thursday, 29 October 2009 14:07