Uma Família como todas as Outras

 

 

Cais, Setembro de 2007
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Logo na primeira temporada da série de animação Os Simpsons, há uma cena de antologia em que Bart e Lisa disputam as preferências de Maggie, a irmã mais nova, e ela, depois de uma longa hesitação, escolhe abraçar o televisor da sala. Este não é exemplo único; poucos serão, aliás, aqueles que se atrevem a negar a sua importância cultural, naturalmente devido à qualidade enquanto produto de ficção -- a que não será alheio o facto de a maioria dos argumentistas ter uma formação em universidades de excelência como Harvard --, mas acima de tudo pelo retrato que faz de uma América (e de um mundo) em mutação. É certo que sequências como essa começaram a tornar-se menos frequentes, em favor de explorações lúdicas e paródicas das personagens e situações, autorizando a hipótese, por vezes levantada nos meios de comunicação, de uma progressiva cedência ao estilo conservador da estação Fox. De resto, se olharmos para as premissas narrativas da série, o centro em torno do qual esta gravita parece ser uma concepção muito localizada -- pequeno-burguesa, dirão alguns --, da família nuclear.

Ou nem tanto: activista nos anos 60, a mãe de Homer abandonou a família para entrar na clandestinidade quando o filho ainda era uma criança; os Van Houten, pais de Milhouse, estiveram divorciados entre a oitava e a décima-sétima temporada; o religioso vizinho Flanders acaba por procurar um novo relacionamento algum tempo depois de enviuvar, e são inúmeros os casos de solteiros inveterados. Perante este panorama, talvez a família de Homer e Marge represente muito mais a excepção do que a regra, um anacronismo que nem sequer pode ser tomado -- por diversas razões, quase uma por cada episódio -- como ilustração de míticos «bons velhos tempos» em que o casamento seria para o resto da vida e os filhos rematariam a felicidade conjugal.

Não esqueçamos que Os Simpsons são um produto da viragem entre as décadas de 80 e 90 -- o primeiro episódio foi para o ar em Dezembro de 1989, recuando as personagens aos sketches que desde 1987 complementavam o Tracey Ulmann Show. Ignorar a contracultura dos anos 60, a crise petrolífera da década seguinte ou o neoliberalismo económico que colocou no Reagan no poder, tão bem retratado pela fábrica de energia nuclear que delineia o horizonte da cidade de Springfield, é hipótese que apenas se compreenderia se Matt Groening tivesse preferido, como um imitador de Disney, que a série fosse destinada a crianças e ao horário televisivo que lhes é dedicado.

Em todo o caso, poucos adivinhariam que viria a ser um dos casos mais bem-sucedidos de toda a história da televisão. Prova disso é o rol de séries que, com maior ou menor radicalidade, lhe seguiram os passos, caso de Family Guy, American Dad ou South Park, quase justificando estarmos perante um novo género televisivo. Depois de muitos boatos, uma longa expectativa, e por fim uma gigantesca campanha promocional -- que levou, por exemplo, a conhecida cadeia de lojas de conveniência 7-Eleven a transformar-se em Kwik-E-Mart --, a cidade de Springfield e as suas personagens chegaram finalmente ao grande ecrã. Sem desiludir, mas também sem igualar os momentos mais memoráveis da série, o filme é subversivo quanto baste, deixando contudo no final aquele «sabor a pouco» que só uma boa dose de episódios da sua «época de ouro» poderá saciar.

 

 


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Texto: 15/Abr/07
Actualização: 8/Dez/07

Last Updated on Monday, 02 November 2009 20:33