O Maduro Ocaso da TV

 

 

Cais, Fevereiro de 2008
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Receio e fascínio: esta é a forma algo paradoxal com que habitualmente se reage a um novo meio de expressão. Por terem mais de um século, já nem nos lembramos que tanto o cinema quanto a fotografia contaram também com esta dupla -- se não esquizofrénica -- recepção. Pouco tardou contudo até que fossem amplamente aceites. Desaparecido o receio dos mais conservadores, é secundário que a familiaridade se substitua ao fascínio, pois renovar o espanto passa daí em diante a ser a função do artista. Passadas largas décadas sobre as primeiras emissões de televisão, esta está longe de ter igual sorte. Pelo contrário, a ideia que mais frequentemente circula, seja proveniente dos especialistas ou do comum espectador, é a de que a pouca qualidade que alguma vez teve não tem parado de decair.

O jornalista de investigação Steven Johnson, num livro de 2005 intitulado Tudo o que é Mau faz Bem, apresenta um curioso argumento que vai no sentido oposto. A televisão e outros novos meios, afirma Johnson, têm vindo a melhorar, seja qual for o critério de aferição. Mesmo que na última década tenham proliferado os reality shows e outro tipo de «lixo televisivo», até o lixo está melhor do que antes, pois os conteúdos são cada vez mais complexos. A complexidade é portanto o elemento fulcral dessa defesa da TV contemporânea: as séries têm mais personagens e mais fios de intriga, a redundância das pistas narrativas tem vindo a ser substituída pelo apelo às capacidades cognitivas do espectador (a atenção a pormenores quase imperceptíveis, a memória, a identificação de referências cruzadas intra e intertextuais) ou, quando é o «real» e não a ficção que está em causa, às suas aptidões empáticas e sociais. Porque agora (entre outras razões) os produtos televisivos têm de manter-se apelativos -- isto é, rentáveis para reruns e para o mercado da venda directa de DVDs -- para além dos 48 minutos de um episódio ou das vinte e poucas semanas de uma temporada, a velha lei da conquista do share através do menor denominador comum vai deixando de fazer sentido.

É essa a explicação do sucesso do canal HBO que, inicialmente dirigindo-se a uma elite cultural, trouxe, a partir dos anos 90, grande parte das séries que obtiveram êxito junto do público e reconhecimento por parte da crítica. Hoje em dia, a complexidade narrativa deixou de ser um exclusivo deste canal, em particular nos géneros narrativos em que a HBO foi mais cautelosa. Um notável e bastante recente exemplo é a série da NBC Heroes. O legado dos comics americanos é a mais óbvia fonte de inspiração -- por alguma razão Stan Lee, o famoso editor da Marvel, fez um cameo num episódio --, mas esta influência é retrabalhada de modo a conferir verosimilhança a uma intriga que nada tem de realista: sim, há heróis com superpoderes, mas nem pensar em capas ou uniformes de lycra. A haver comparações com outros marcos da ficção televisiva, estas não podem ser feitas com o Batman dos anos 60, e sim com Smallville (devido à temática e à densidade psicológica das personagens), mas acima de tudo com Lost. Os protagonistas ascendem a mais de uma dezena, os fios narrativos são a tal ponto emaranhados que o «arco» se estende ao longo das temporadas, apesar dos clímaxes intermédios, e assumem-se verdadeiros riscos, como sejam o de não acompanhar sempre todas as personagens ou o de suspender a sequência cronológica para introduzir episódios apenas com flashbacks ou flashforwards.

Há quem afirme que, tal como a TV matou a rádio, a Internet está agora a matar a TV, e que o termo mais adequado para descrevê-la é o de «pós-televisão». Séries como Heroes, contudo, levam-nos a pensar se esta não está a viver, em vez disso, uma tardia mas sólida maturidade.

 

 


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Texto: 15/Out/07
Actualização: 8/Dez/07

Last Updated on Monday, 02 November 2009 20:41