Para onde vai a World Wide Web?
Cais, Maio de 2007
Que a Internet está a provocar alterações profundas no tecido social é um facto que poucos se atrevem a negar. Afirmá-lo é contudo insuficiente se tais mudanças não forem devidamente identificadas e contextualizadas. Passada uma década sobre um estudo pioneiro de Gustavo Cardoso (publicado em 1998 com o título Para uma Sociologia do Ciberespaço), não pode dizer-se que a comunidade académica portuguesa se tenha alheado da questão. Assim o demonstram investigações -- na sua maioria desconhecidas do grande público -- que têm procurado acompanhar e compreender a rede enquanto fenómeno sociocultural. O ritmo a que as inovações têm surgido obriga contudo a uma constante actualização dos modelos explicativos. Apenas como exemplo, uma distinção que era bastante relevante para esse estudo colocava a um lado as ferramentas que se destinavam a satisfazer as necessidades individuais de acesso à informação (Telnet, FTP, Gopher, WWW), opondo-lhes as que se dirigiam à nossa dimensão de seres sociais (mailing-lists, e-mail, newsgroups, chat). Actualmente, tal diferença está prestes a diluir-se. Antes de mais porque a World Wide Web absorveu essas tecnologias, fazendo do browser uma super-ferramenta que contém todas as outras. Além disso, foram inúmeras as inovações (algumas então em embrião, outras imprevisíveis) que modificaram profundamente o panorama da comunicação mediada por computador: os sistemas peer-to-peer de partilha de ficheiros (que obrigam a repensar a figura jurídica do direito de autor), os blogs, os wikis (de que a Wikipedia é o caso paradigmático), e -- inovação mais discreta, mas porventura a que gerará modificações mais profundas a longo prazo -- a tecnologia RSS («Rich Site Summary» ou «Really Simple Sindication»), que, libertando-se do «fogo de artifício» da apresentação para conservar apenas o relevante, permite que o utilizador receba «a pedido» conteúdos e agregue as mais diversas fontes. Acrescente-se às ilustrações anteriores a avalanche de novos serviços como o YouTube, o Flickr, o del.icio.us, o Digg, algumas ferramentas do Google ou a própria Wikipedia. A tendência que emerge é justamente a de o acesso à informação (antes um acto individual) se dotar de uma vertente social. O modelo clássico do «um para muitos» está a dar lugar à produção e distribuição colaborativa de conteúdos, a pesquisa e descoberta de informação relevante começa a ser um acto partilhado, e os chamados mashups permitem associar informações antes isoladas -- um exemplo interessantíssimo pode ser encontrado em www.chicagocrime.org/map/, onde é exibido um mapa do Google com os crimes mais recentes na cidade de Chicago. A toda esta tendência se tem dado o nome de «Web 2.0» ou «web social», e o facto de a revista Time ter considerado cada um de nós, utilizadores, como a «pessoa do ano» é algo que merece reflexão. Sendo certo que é difícil traçar linhas divisórias entre o que há de concreto e de objectivo em expressões como essa e o que ela pode ter de ideológico (por mais que promovendo algo tão nobre quanto a esperança de uma sociedade da informação e do conhecimento sem info-excluídos), importa que se esteja atento ao que vai surgindo e que se desfrute dos novos modos de «estar» na WWW.
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Texto: 15/Abr/07 |
| Last Updated on Monday, 02 November 2009 20:45 |





































