Ortopedia Ortográfica?

 

 

Cais, Abril de 2008
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Daqui a seis anos, este artigo estará duplamente desactualizado. Como tudo o que é destinado à imprensa periódica, o prazo de validade (mesmo que não saibamos antecipá-lo com exactidão) é sempre curto, e depois disso o seu futuro é apenas o de servir -- se a curiosidade o justificar -- de testemunho dum passado do qual só restarão os arquivos. É contudo outra a obsolescência que aqui desperta as nossas preocupações. Ratificado o novo acordo ortográfico (ou velho de dezassete anos?), e esgotado o período de adaptação, muitas das palavras que compõem este texto estarão -- pelo acto mágico que é um decreto-lei -- incorrectamente grafadas. Hoje, desprovido de erros, em parte devido àqueles profissionais que -- é essa a sua ocupação -- revêem as palavras que outros escreveram, adoptando-as momentaneamente como se fossem suas; em breve, repleto de gralhas. O software de correcção automática, depois de adquirida uma versão actualizada, será peremptório: «húmido» não leva «h» (mas a água continuará a ser H2O, não perdendo um único átomo de hidrogénio); a «electricidade» não leva «c» (mas isso em nada a impedirá de ser conduzida através dos cabos), «Egipto» é sem «p» (mas as pirâmides hão-de permanecer). Não se espera que as facturas venham a beneficiar de uma redução do IVA, mas pelo menos o «c» vai cair, sem pára-quedas que trave o esquecimento de como antes -- isto é, ainda agora -- se escrevia.

Há muito que os «phantasmas» perderam algum do seu encanto; talvez possa dizer-se que, quando saíram de livre vontade dos castelos que habitavam, o prosaico «f» inicial pesou mais do que o ruído de alguma auto-estrada que passasse por perto. Da mesma forma, qualquer vestígio de remotas etimologias gregas e latinas será apagado; quem quiser, que a isso se dedique, seja por apego ao saber ou por alguma obrigação lectiva. Fora desse campo puramente académico, quem insista em conservar hábitos há muito adquiridos correrá o risco de passar por antiquado, por fóssil vivo de épocas anteriores aos SMS, quando siglas e abreviaturas eram escassas e se usavam consoantes que nem estavam lá para ser pronunciadas -- «parece», dirão alguns um tudo-nada mais esclarecidos, mesmo que ignorantes das excepções, «que serviam para abrir as vogais antecedentes».

Se essas mesmas vogais vão continuar abertas é uma incógnita. Podemos acalentar alguma esperança de que, pelo menos tão depressa, possa ser travada a tendência tão portuguesa para erradamente tomar -- e portanto imitar -- a pronúncia erudita pelo emudecimento das vogais (como em «ec’nomia» e «m’strado»), evitando que «nocturno» soe quase como «soturno». Contudo, a hipercorrecção pode muito bem deslocar-se no sentido inverso, tornando comuns -- mas nem por isso menos incorrectas -- aposições de acentos onde estes não são necessários, como outrora com a acentuação pré-esdrúxula nos advérbios de modo.

Com o hífen praticamente reduzido a formas reflexas e similares («lavar-se», «esqueceste-te»), os fins-de-semana nem por isso vão deixar de ser ao Sábado e ao Domingo, mas até estes -- e quaisquer outros -- nomes de dias vão perder a maiúscula inicial. E, como estes, também os dos meses: reconheçamos que não é maneira de invocar a memória de imperadores como Júlio César e Augusto, e muito menos de Jano, o deus dos portões.

Poderíamos continuar com os exemplos, mas estes parecem-nos suficientes. Mais de duas dezenas de palavras neste artigo vão mudar de grafia, e com elas cerca de 1,6% do nosso léxico -- o Brasil, em contrapartida, vai ter de alterar apenas 0,45%. Conseguirá o leitor identificá-las?

 

 


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Texto: 15/Out/07
Actualização: 8/Dez/07

Last Updated on Monday, 02 November 2009 20:40