Os Radares e a Cultura da Vigilância

 

 

Cais, Novembro de 2007
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Para quem se desloca de carro em Lisboa, é quase impossível fazer qualquer percurso entre dois pontos sem cruzar pelo menos um dos novos radares de controlo de velocidade. Os condutores assumem invariavelmente o mesmo padrão: ao aproximarem-se do detector reduzem a velocidade para aquela que está regulamentada, e logo de seguida retomam a que antes levavam. O (meritório) motivo declarado para a implementação deste sistema é a redução da sinistralidade, mas algumas fracções da opinião pública -- talvez com a sua dose de razão -- invocam também um outro, a velha teoria da «caça à multa» para aumentar as receitas públicas. Em nome de uma melhor compatibilidade entre essas duas exigências, circulou recentemente uma petição para que nalguns locais o limite máximo de velocidade fosse aumentado -- pedido que foi atendido apenas para um troço em zona reservada a automóveis.

Ao concentramo-nos demasiado no antagonismo das posições, arriscamo-nos contudo a não dar conta que o controlo por radar é apenas uma de muitas facetas de um fenómeno bastante mais vasto. Alguns exemplos de outros países talvez permitam compreender melhor o que aqui está envolvido. Em meados de Setembro deste ano, na cidade de Vancouver, foram roubados seis computadores portáteis de uma empresa. O roubo foi captado por uma câmara de vigilância, mas a baixa resolução das imagens não permitiu identificar os criminosos. Ora, um desses computadores possuía uma webcam configurada para, de forma automática, captar e enviar periodicamente fotos para uma conta do Flickr, um conhecido serviço de partilha de imagens. Ignorante deste facto, o novo «dono» tinha, passados alguns dias, a sua foto não só no Flickr como em diversos fóruns da Internet. Desprevenido e humilhado, não lhe restou outra hipótese senão a de devolver o portátil, alegando em sua defesa que o tinha comprado em segunda mão.

Outra ilustração: a 25 de Maio de 2007, o Google Maps lançou uma nova funcionalidade intitulada «Street View», que permite ter uma vista panorâmica das principais ruas de algumas cidades dos EUA. Kevin Bankston, um advogado, surge numa dessas imagens a puxar de um cigarro. A ironia é dupla: Bankston, que havia prometido à família que ia deixar de fumar, trabalha para a organização não governamental Electronic Frontier Foundation, que defende causas como a liberdade de expressão e o direito à privacidade na Internet. A tornar tudo ainda mais caricato, já não é a primeira vez que é apanhado nas malhas da «Rede», pois algo de similar lhe havia ocorrido com um outro serviço de mapas online.

Perante a generalização de situações como estas, há quem afirme -- de filósofos como o já falecido Gilles Deleuze a sociólogos como David Lyon -- vivermos numa «sociedade do controlo», tendo nós abdicado (explícita ou tacitamente) de uma parcela do direito à privacidade em favor -- argumentam os defensores, por vezes fazendo menção ao pós-11 de Setembro -- de um acréscimo do direito à segurança. Escamoteiam-se com isso os aspectos menos imediatos da questão, como o facto de a cidade mais bem vigiada do mundo, Londres, não ter conseguido reduzir a criminalidade apesar das dez mil câmaras espalhadas pelas ruas. E, tanto ou mais importante, a convivência que temos com a tecnologia -- com qualquer tecnologia, sirva ela ou não para captar instantâneos da nossa privacidade --, tão estreita que nos tornámos insensíveis à sua presença. E, portanto, cada vez mais indiferentes às suas consequências.

 

 


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Texto: 15/Out/07
Actualização: 8/Dez/07

Last Updated on Monday, 02 November 2009 20:39