A Info-Inclusão no Sapatinho

 

 

Cais, Dezembro de 2007
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Uma das promessas hoje em dia mais sonantes é a de uma «sociedade da informação e do conhecimento». Se outrora se sonhava com a alfabetização generalizada, hoje a fasquia das expectativas foi colocada muito mais acima: a capacidade de ler e escrever é insuficiente, e no acesso universal à informação -- ou melhor, aos meios tecnológicos que a veiculam -- está agora a chave para uma nova utopia.

Mesmo que limitadas no seu alcance, pelo menos na actual conjuntura sociopolítica global, são louváveis quaisquer iniciativas que tenham esse objectivo em mente, em particular quando destinadas às novas gerações. Uma das mais recentes é o projecto One Laptop per Child (OLPC), promovido por Nicholas Negroponte, que procura dotar as crianças dos países subdesenvolvidos de computadores portáteis destinados ao ensino. Não se tratando de notebooks de topo de gama -- a velocidade do processador e a memória estão abaixo dos actuais standards comerciais --, recorrem contudo a algumas tecnologias inovadoras que permitem elevada autonomia, consumos abaixo de 1 Watt, conectividade de grande alcance a Internet sem fios e uma interface-utilizador quase revolucionária, descendente das propostas construtivistas do MIT Media Lab, de que Negroponte é o director. E, para as situações em que o acesso a energia eléctrica é irregular ou mesmo inexistente, a opção de um gerador operado à manivela.

Igualmente revolucionário é o preço, que poderá -- se as economias de escala o permitirem -- chegar aos 100 dólares, mas que por ora ronda o dobro desse valor. Através do programa «Give One Get One», iniciado a 12 de Novembro deste ano, os cidadãos dos EUA podem, pela (para eles) acessível quantia de 399 dólares, adquirir um XO -- é esse o nome do portátil -- e custear um outro, destinado a uma criança de um país em desenvolvimento.

À semelhança de iniciativas similares, esta já teve a sua dose de peripécias e de polémicas, algumas documentadas no blog noticioso independente www.olpcnews.com/. Uma preocupação óbvia diz respeito à adequada distribuição e uso destes computadores. Tal como para outros tipos de ajuda humanitária, é importante que se assegure que os destinatários são de facto as crianças (e professores), pois, ainda que o software de origem tenha sido concebido para um contexto de aprendizagem, há sempre formas de substituí-lo ou de dar-lhe usos não previstos. E por mais que o ar de brinquedo do XO possa servir de estigma -- quem irá cobiçar um aparelho com teclas verde-alface? --, isso está longe de ser uma garantia de que não vai ser desviado para o mercado negro.

Foi também bastante aceso o debate em torno do que deveria vir instalado: nem os laptops devem estar ao serviço de qualquer tipo de evangelismo (mas onde traçar os limites entre o universal e o local?), nem o respeito pela diversidade cultural pode servir de desculpa para torná-los instrumentos de propaganda de Estado.

A tudo isso há ainda a acrescentar os interesses económicos que começam a emergir em torno da iniciativa. Desde a fase inicial do projecto, estabeleceu-se o consenso de que tanto o sistema operativo quanto as aplicações deveriam ser open source, para assegurar a gratuitidade do software. Agora que este toma forma, a escolha do Linux começa a ser vista como uma ameaça a longo prazo ao domínio do Windows, o que levou a Microsoft a manifestar o seu interesse numa colaboração que antes não era prioritária. Ao menos neste aspecto -- e mais ainda no campo do hardware --, a concorrência pode vir a ser algo bastante saudável: na Índia foi anunciada a possibilidade de construir um portátil de 47 dólares, e uma conhecida empresa taiwanesa apresentou um mini-laptop de baixo custo destinado aos mercados dos países mais desenvolvidos.

Da promessa da info-inclusão à sua realidade, o caminho será com certeza longo, mas aqueles que mais necessitam não deixarão de agradecer sempre que iniciativas como estas se concretizem.

 

 


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Texto: 15/Out/07
Actualização: 8/Dez/07

Last Updated on Monday, 02 November 2009 20:43