«Don't Worry, be Happy!»

 

 

Público, Caderno P2, 19 de Setembro de 2007
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Há muito que foi notado o quanto se perde ao transpor para a escrita a multidimensionalidade do discurso oral. Entoações, pausas ou flutuações de volume, elementos inevitavelmente ligados à voz, mas também expressões faciais, gestos ou posturas desvanecem-se quando fixados nesse outro meio. Apesar do legado de Derrida, o filósofo que mais fez pela restituição da centralidade da escrita -- ou melhor, pela descoberta de quanto o oral se rege pela escrita devido à iterabilidade dos actos de fala --, a atitude da cultura ocidental perante este seu traço fundador é a de tomá-lo como uma espécie de «pecado original» carente de redenção. Se Platão começara por denunciar o definhamento da memória, o cristianismo adoptou o ambíguo e prudente «verba volant, scripta manent»: a palavra falada percorre distâncias, mas também se esvai; a escrita resiste ao tempo, embora isso de nada valha se permanecer imóvel.

Procurando aproximar as duas modalidades verbais, e com isso conciliar Livro e pregação, os monges medievais adoptaram e introduziram todo um conjunto de marcas auxiliares para facilitar a leitura adequada das Escrituras. Entre a impossível codificação de todas as nuances orais e a exigência de simplicidade, vingaram apenas símbolos fundamentais, como vírgulas e pontos, com o máximo de extravagância a ficar-se talvez pelo ponto de exclamação. Alcanter de Brahm, poeta francês do século XIX, chegou a sugerir um -- talvez demasiado revelador -- «ponto de ironia», e mais tarde conterrâneos como Hervé Bazin levariam a ideia ao cúmulo, criando outros «pontos»: de dúvida, de aclamação, de indignação ou mesmo de amor. Apesar de depois aproveitada num desenho animado educativo, a proposta mal saiu das vanguardas literárias.

Ora, a serem verdade os aforismos de McLuhan segundo os quais a era da comunicação electrónica constitui um (sofisticado) regresso a uma forma de tribalismo e de oralidade, a necessidade de sinais diacríticos como esses deveria algum dia tornar-se premente. Não esqueçamos que, ao anunciar uma cultura pós-tipográfica, em nenhum momento McLuhan a descreveu como anti-tipográfica: a escrita não tem de desaparecer; antes se adapta aos meios que agora a «colonizam», como ela antes colonizara a fala.

Façamos uma ressalva. Os múltiplos géneros do discurso escrito, em particular nas suas modalidades mais formais -- o discurso jurídico (a que os anglófonos chamam «legalese»), a correspondência institucional e empresarial, etc. --, levaram séculos a aperfeiçoar-se e, por isso, hão-de resistir a mudanças súbitas. Mas nos novos meios electrónicos, que se aproximam da oralidade por propagarem as mensagens de modo quase instantâneo, com isso estreitando as distâncias, a escrita é uma possibilidade entre outras e não o fulcro da comunicação. É neles que se pode fazer jogo duplo, ora tornando «escrito» o que era do domínio do «oral» (leia-se Gramophone, Film, Typerwriter, de Friedrich Kittler, onde o advento dos registos sonoros é tomado como ponto de viragem na cultura ocidental), ora investindo em novas formas de re-oralizar o discurso escrito.

Foi graças ao e-mail e às BBS, numa altura em que só uma reduzidíssima minoria composta por militares, académicos e informáticos dispunha desses meios, que finalmente surgiu, se standardizou e disseminou o uso de smileys ou emoticons. As comunidades de fãs de sword & sorcery e dos role-playing games tinham já adoptado a ideia do escritor americano Ambrose Bierce, a combinação «\__/!» no final de uma frase, como marcador de ironia ou humor. Mas só há 25 anos, num fórum de ciências da computação, surgiu a «proposta ganhadora», o bem conhecido :-) . Seja pelo seu carácter de «ovo de Colombo», seja pela versatilidade que levou a inúmeras -- algumas bem barrocas -- variantes, certo é que em meados dos anos 90 não havia manual de introdução à Internet que não ensinasse aos novatos o seu significado. Os programas de chat e de instant messaging levaram os smileys a um novo nível ao representá-los como imagens fixas ou animadas -- contrariando inclusive o objectivo inicial, que era o de serem usados num meio exclusivamente de texto ASCII.

Hoje, passado o fascínio inicial, o seu uso tornou-se mais moderado mas nem por isso desapareceu. De resto, mais importante do que saber o quanto são ainda utilizados é perceber o que ajudaram a alterar, seja no contexto da comunicação mediada pelo computador seja no campo mais alargado da interacção humana. Meio de «banda curta», ainda que actualmente se possam anexar documentos com vários megabytes, o e-mail (tal como os SMS) adequa-se melhor a mensagens sucintas em que, dispensados alguns formalismos (excepto nalguns e-mails corporativos, repletos de inúteis cláusulas de salvaguarda), os equívocos estão sempre à espreita. Os smileys, pensados para minorar essa ambiguidade, aligeiraram ainda mais o tom, deixando a distância social reduzir-se, fosse quem fosse o destinatário. Fenómenos mais recentes como os blogs ou as redes sociais podem por isso ser entendidos como rebentos desse casamento feliz entre e-mail e emoticons: os seus interlocutores são, tanto ou mais do que outrora o eram as epístolas de S. Paulo, o mundo e não alguém em particular.

 

 


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Texto: 15/Set/07
Actualização: 13/Mar/08

Last Updated on Thursday, 29 October 2009 14:19