«Vai um Space Invaders?»

Breve artigo para a revista DIF de Abril de 2004 sobre o fenómeno cultural do «retrogaming».

DIF, Abril de 2004

Retrogaming ou Crise de Meia Idade?

 

Revista DIF, Abril de 2004

 

Para que conste, os videojogos existem há mais de 40 anos (Space War, o primeiro até prova em contrário, surgiu em 1962), ainda que só tenham adquirido o estatuto de fenómeno de massas na segunda metade da década de 70. Tempo suficiente para que Pong e Asteroids tenham dado lugar a diversas vagas de Final Fantasy, Tomb Raider ou F1 Grand Prix, tempo também suficiente para que os avanços no hardware e no software proporcionassem uma crescente complexidade e a um surpreendente grau de realismo. Não devemos contudo iludir-nos: à excepção da tendência recente para fundir géneros que antes eram como água e azeite (acção e estratégia, por exemplo), nos anos 70 e 80 foram exploradas praticamente todas as possibilidades no domínio dos videojogos. Como afirma o «ludólogo» norueguês Espen Aarseth, director da revista académica Gamestudies, «no que diz respeito à jogabilidade, temas, tarefas, subgéneros e estrutura dramática, pouco mudou nas últimas duas décadas».

A verdade dessa afirmação não implica, todavia, que as mudanças se reduzam ao «substrato» técnico. Mais relevantes são as que têm lugar a um outro nível, o da relação entre os videojogos e a comunidade de jogadores. Tal como na moda, também os videojogos são produto tanto da criatividade quanto da necessidade de ir ao encontro de um público que tenta conciliar a expectativa do novo com o reconhecimento do familiar. Em termos mais simples, sempre que sai um jogo de futebol, espera-se que as inovações sejam suficientes para abandonar os do ano anterior, mas ao mesmo tempo é necessário que não se tenham de adquirir novas competências.

À semelhança do campo artístico, esta «historicidade» – perdoe-se o palavrão demasiado filosófico – da experiência e da criação leva a que também nos videojogos se sucedam, de modo praticamente inevitável, uma fase incipiente, uma golden age, uma fase «flamejante» e, a terminar, aquilo a que podemos chamar a fase tardia (ou «pós-moderna»). Não nos deixemos assustar pelos termos. O que eles pressupõem é muito simplesmente uma crescente consciência do legado histórico dos videojogos que se concretiza, na última fase, numa produção auto-reflexiva e numa atracção pelo pastiche, se pensarmos nas equipas de programadores, e no back to basics, no caso dos utilizadores finais.

Sem dúvida que a nostalgia e a paixão de coleccionador têm um papel determinante (pense-se na recente rubrica «Músicas para Sonhar», no Programa da Manhã da BestRock FM), mas ambas são insuficientes para explicar a recorrência do retro. No caso dos videojogos, o fenómeno explodiu em diversas frentes. Ainda nos anos 90, o aumento das capacidades de processamento e armazenamento permitiu que computadores oficialmente extintos fossem fielmente emulados. Os ZX Spectrum, os Amiga e mesmo consolas como a MegaDrive apanham pó nas prateleiras. Contudo, uma visita à Internet permite descarregar para qualquer PC emuladores destas máquinas e cópias do respectivo software. No caso dos emuladores do Spectrum, chega a ser possível ligar os velhos gravadores de cassetes à placa de som, bastando de seguida um snapshot da memória para copiar os jogos no disco rígido: o que antes demorava cinco estridentes minutos regressa aos ecrãs no tempo dum clique no rato.

A «febre» revivalista atingiu o cúmulo com o projecto MAME (Multiple Arcade Machine Emulator), programa que emula as máquinas de arcade. A tarefa é muito mais complexa do que no caso anterior, pois a lista de jogos atravessa quase três décadas (dos anos 70 aos 90), múltiplos processadores e uma quantidade imensa de «blocos de ROM» que reproduzem a informação constante dos circuitos originais. O programa está disponível gratuitamente, acontecendo o mesmo com o código-fonte – open-source, podendo portanto ser melhorado por quem tenha os conhecimentos adequados e a paciência para fazê-lo. Ainda que o emulador pertença ao domínio público, o mesmo não ocorre com os jogos. Dos 2702 (em 4796 variantes) listados no início de Março deste ano e compatíveis com o MAME, apenas 3 estão legalmente disponíveis. Nos outros casos, apenas a improvável posse do jogo original no mesmíssimo formato de máquina de arcade impede que a sua cópia seja crime de pirataria, o que leva ao estranho paradoxo de um emulador acessível mas sem jogos para emular.

Entre os emuladores de computadores pessoais e o MAME há ainda uma outra diferença. No primeiro caso, pouco muda quando o velho Amiga «renasce» no PC: a ambos são comuns o teclado e o ecrã. Já no caso do MAME, o software, destinado originalmente a pesadas máquinas com joysticks, botões de controlo e – importantíssimo – uma ranhura para moedas, migra para um outro suporte, fazendo com que, por exemplo, a inserção de moedas seja substituída pela pouco onerosa pressão numa tecla. Para a maioria, contudo, essa é uma questão irrelevante, interessando essencialmente a fidelidade ao jogo. Entre a cópia (ilegal) do Arkanoid das máquinas, a (provavelmente ilegal) do Spectrum e uma versão de imitação, a solução de compromisso, mas também a mais prática pela sua mobilidade, é o regresso dos clássicos na sua versão para telemóvel. O ecrã é minúsculo, os controlos são pouco práticos, mas o essencial permanece, pois no mundo dos videojogos muito se cria mas nada se perde, e tudo se transforma.

 

Texto: 22/Mar/04

© Jorge Martins Rosa